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Micro-Conto – Começos

A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda –  Juramento de Hipócrates.

Ou, como Paulo costumava dizer durante a recém terminada faculdade de medicina, Juramento dos Hipócritas. Médicos atores, que dão esperanças à quem não mais a têm. Mostram saídas que levam cada vez mais ao fundo do labirinto, remarcam consultas e agendam visitas contabilizando os atendimentos para receberem seus trocados dos planos de saúde como se pudessem fazer alguma coisa. Como se sua mera presença fosse curar um enfermo nos últimos estágios de vida.

Prometeu a si próprio que não seria um destes. Diria a verdade, pura e simplesmente. Teria a resposta à velha pergunta “é grave, doutor?” na ponta da língua, previamente ensaiada para cada um dos prováveis casos em seu consultório: ” Sim,Você irá morrer disto, infelizmente” diria para a velha obesa cardíaca. “É tarde demais para parar agora” ao fumante inveterado com sua  neoplasia maligna pulmonar. Meras palavras. Verdade nua e crua. Em sua opinião, pérolas. Uma melhor que a outra.

Havia inclusive guardado um champagne para brindar a noite em que enfim poderia largar o peso de um; “Seis meses? Sejamos realistas…” sobre um infeliz enfermo qualquer. Treinava na frente do espelho todas as manhãs, enquanto penteava o topete que lhe garantia um ar juvenil mesmo beirando os trinta: “Seis meses?” “SEIS meses?”. Estava cada vez melhor naquilo. Naquela manhã de estréia, considerava sua atuação digna de um Oscar.

Adentrou seu consultório com um sorriso calculado. O Juramento estava em um quadrinho na parede ao fundo. Estava tudo cheirando a novo. Seu jaleco impecavelmente branco, a caneta dourada recebida de seu professor instalada no bolso e a pastinha de couro – presente de formatura da prima que vivia no interior do Mato Grosso – sob o braço. Cumprimentou a secretária recém contratada com um aceno educado, demorou-se alguns instantes fingindo procurar alguma coisa sobre a mesa para apreciar o decote generoso e entrou. O primeiro paciente o seguiu logo após.

Doutor – começou o pragmático com cara de caminhoneiro; gordo como um búfalo, os dedos escuros de picar fumo, apenas um braço vermelho de sol. Seguiram-se às explicações costumeiras. Dores em lugares que antes não doíam, manchas novas, uma coceira que não passava. Algumas perguntas, algumas respostas.  Diagnóstico bastante claro e Paulo sorriu. Havia começado bem. Iria por suas convicções em prática. Sem mentiras, sem rodeios e enganações. Nada de novas consultas ou exames custosos. Apenas o óbvio. O inevitável.

- Infelizmente, é incurável. Não há nada que eu possa fazer. Você têm no máximo… – a sorte grande, logo na estréia! – Seis meses.

Teve certeza de que tinha sido perfeito. O som de sua voz ainda ecoava na própria mente, regojizando-se pelo triunfo de estréia quando a rouquidão áspera do brutamontes se fez ouvir. Paulo despertou de seus devaneios no mesmo instante e descobriu-se – grande trapalhada – sorrindo. Havia sido mais forte do que ele. Uma sensação de êxtase que nasceu no estômago, subiu pela garganta e escapou-lhe pelos lábios. Esperara muito por aquela hora. Só aconteceu.

Talvez por causa de algum infortúnio, ou quiçá mero acaso do destino, nosso amigo paciente não era do tipo que recebia muito bem um sorriso junto com a informação de que morreria dentro em breve. Exigiu então que fosse curado, ou pelo menos, queria o dinheiro daquela consulta inútil de volta. O médico, pego de surpresa, negou-se. Na sala de espera, ouvi-se o som de luta, e segundos depois, notou-se a partida do taurino de pescoço largo com passadas firmes e furiosas; sutil como um paquiderme.

Levou algum tempo até que Paulo saísse da sala por sua vez, lentamente calculando o saldo: um olho roxo, nariz quebrado, dois dentes a menos.  Não haviam mais consultas por aquele dia, tampouco haveriachampagne. Voltou a clinicar apenas duas semanas após o ocorrido, quando sentiu-se suficientemente restabelecido. A nova primeira paciente agora era uma mulher com um carcinoma bastante óbvio, devido ao avançado estado de evolução.  O marido ao lado tinha cara de poucos amigos.

Paulo, por via das dúvidas, pediu alguns exames.

E marcou a reconsulta, para dali há quinze dias.


Ninguém é de Ninguém

Antes de começar a falar do livro em si, vale deixar bastante claro que minhas impressões e comentários são relativos apenas a obra em questão, não tendo nenhum tipo de preconceito ou desdém em relação ao espiritismo, a existência ou não de vidas passadas ou a qualquer outro tipo de dogma que por ventura algum leitor siga.

Outro ponto: como este foi o primeiro livro da autora que li, não irei considerá-la de todo ruim sem ter lido alguma outra obra para usar como base de comparação. De acordo com o que diz a capa, esta obra foi ditada por um espírito chamado Lucius. Então, deixo um certo crédito para a dona Zibia Gasparetto, que talvez seja muito melhor escritora sem a influência do já citado desmorto.

Quanto a obra como um todo, fazia bastante tempo que eu não ficava absolutamente irritado com um livro, em especial com o seu personagem principal. Trata-se de um empresário que venceu na vida sem estudo apenas por seu próprio esforço de nome Roberto. Ele é, digamos, no mínimo uma pessoa com dificuldades no que diz respeito a lidar com a esposa, Gabriela. Acometido por um tipo de ciúme doentio, ele passa as primeiras 360 páginas atazanando a vida da mulher (note que o livro tem 370 delas).

Acredito que a frase “você deveria largar o emprego” foi repetida pelo menos oitocentas vezes pelo protagonista no transcorrer do tomo. Praticamente o bordão de Roberto que se não dizia isso para a pobre da Gabriela, pensava nisso e procurava meios de conseguir isso o tempo inteiro. Lucius em vários momentos parece que esquece que já havia contado determinados detalhes ou até mesmo pequenas partes da história e as conta de novo. E de novo!

Nas primeiras 150 páginas, acompanhamos a derrocada do dito cujo desde o momento em que perde toda a grana, passa a ser sustentado pela esposa e não contente ainda encontra tempo para imaginar um romance que não existia entre ela e o patrão, Renato (um tipo de milionário padrão Justus)que é casado com Gioconda, que tecnicamente é um Roberto de saias, com a desvantagem de viver lamentando-se (mimimi).

A história gira em torno dos casamentos arruinados entre estes quatro personagens e suas maquinações para manter a relação por parte de Roberto e Gioconda e para tentar levar a vida em relação aos outros dois. Lá pelas tantas começam a aparecer espíritos malignos, todos os personagens envolvidos na trama passam a freqüentar centros espíritas, rodas de macumba e correlatos até o desfecho que é o que por muito pouco faz o livro valer a pena. Mas por muito pouco mesmo.

É um misto de auto-ajuda para homens e mulheres ciumentos recheado com toda a sorte de mensagens otimistas de ver a vida como uma escola onde aprendemos a nos tornar espíritos mais evoluídos. Se você está procurando um livro para ficar absolutamente nervoso, recomendo esse aqui.


Vivendo no Limite

Frank Pierce é paramédico a cinco anos nas ruas escuras de Nova Iorque atendendo os chamados do 911 todas as madrugadas, dormindo mal, sem esposa, sem dinheiro, e ultimamente sem sorte. Desde que “ajudou a matar” uma asmática em uma chamada noturna os fantasmas dos milhares de mortos costumam acenar para ele, em praticamente todos os lugares que olha.

Vivendo no Limite - A primeira obra de Joe Connelly – que realmente foi paramédico – foi um sucesso de critica devido a crueldade sincera das experiencias que ele próprio viveu e transpôs para o livro na pele do personagem-narrador dando aos dois dias de trabalho retradados no livro um tom épico ao contrário, entupido de drogas, overdoses e depressão.

O próprio personagem principal vive em um drama diário, pedindo demissão várias vezes durante o ano inteiro, já descontando todos os dias de férias e licença-saúde que tinha direito, alcoolatra e “coração-mole”, apegando-se aos pacientes de uma forma que foge um pouco do que seria saudável para alguém que conduz pessoas a beira da morte até o hospital ( O Miséria, ótimo apelido pro pardieiro super-lotado)

A narrativa prende o leitor durante quase toda a trama, e os personagens caricatos da noite Nova Iorquina – mendigos, prostitutas, cafetões e traficantes – fazem você pensar as vezes que está lendo algum épico cyberpunk sem as mega-corporações. Leitura recomendadissima.

E parece que virou filme também, mas esse foi bem criticado. Vai entender.


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