Três dias de viagem separavam o vilarejo de Petrus em Tollon da Cidade da Tríplice Fronteira, Ciela. Crescendo de forma desorganizada no ponto onde o Rio dos Deuses serve de barreira natural para os reinos de Tollon, Ahlen e Collen, Ciela acabou se tornando um reduto de miseráveis, punguistas e espertalhões. Exatamente o tipo de pessoa que Enemaeon procurava naquele momento.

Após o devido pagamento ao carroceiro, o mago respirou profundamente antes de atravessar o portão principal do Priorado de Racalzar. O velho condutor que o trouxe até ali sorriu com uma boca já sem dentes, e partiu no mesmo trote lento que manteve durante toda a jornada. Amaldiçoando seu retorno até aquela cidade, o necromante apressou-se em atravessar as alamedas sujas por excrementos e terra úmida e entrou em uma taverna de aspecto idêntico ou pior do que encontrara do lado de fora. O chão de terra batida coberto de feno estava impregnado de mofo e pulgas, e sob a única mesa vaga das três que completavam o mobiliário, um cão coberto de sarna se coçava alegremente.
Resistindo ao impulso de enchotar o cão, o mago sentou-se com as costas para a parede e aguardou pelo taverneiro. Antes deste se dar conta do novo cliente, porém, os latidos enfurecidos do cão se fizeram ouvir, chamando a atenção de todos os presentes. O próprio Enemaeon, entretanto, não precisou buscar a fonte da irritação do canino pulguento. Ele já sabia de quem se tratava.
Era o mesmo gato preto que o acompanhou durante toda a viagem, e já o importunava dias antes na estalagem em Garlon ao oeste de Tollon. Apesar de nem por um momento ter permitido que ele subisse ao carroção, por pelo menos três ou quatro vezes o mago tinha plena certeza de que havia passado por ele na estrada, empoleirado em um galho baixo ou caçando passarinhos nas moitas adjacentes.
- Três dias de viagem a pé são bastante extraordinários para um gato – comentou o necromante assistindo o avanço preguiçoso do felino. Ao mesmo tempo, o cão que antes ladrava havia se calado. Estudava o inimigo com uma curiosidade assustada, e um ganido de pavor escapou de sua garganta quando, com um salto preciso, o gato parou sobre o banco da mesa, olhando-o com seus olhos amarelos. O sabujo fugiu com o rabo entre as pernas no mesmo instante.
- Perdão pelo cão – disse o taverneiro que manuseava um pano enegrecido pela sujeira nas mãos igualmente imundas – Espero que isso não o tenha chateado.
- É certo que ficaria mais feliz se seu cão tivesse colocado o gato para correr, e não o contrário. – respondeu o mago indiferente ao bichano que se aninhava em suas pernas.
- Deseja algo para comer?
- Desde que não seja você o cozinheiro… senhor…
- Ilgon – respondeu o homem empertigando-se, ofendido pela grosseria do cliente. Entretanto, os três tibares que escaparam das longas mangas do traje de viagem de Enemaeon logo fizeram o sorriso do taverneiro voltar ao rosto, agora um pouco mais servil, dobrado pelo ouro – Quem cuida da cozinha é minha esposa, Sara. O trato com os clientes e com a bebida deixa nossas mãos neste estado, e então…
- Não é necessário que você entre em detalhes quanto a sua higiene pessoal, senhor Ilgon. Basta apenas que me traga algo para comer e que me ajude a encontrar uma certa pessoa, e logo mais duas destas moedas irão escorregar para seu bolso.
Perguntar sobre alguns dos habitantes “ilustres” de Ciela era bastante comum por parte de viajantes, mas também o era pela milícia. Geralmente tais pedidos careciam de alguma discrição tanto por parte do pedinte quanto do informante, especialmente para evitar que alguma palavra mal colocada acabasse custando o pescoço de ambos. Porém, aparentemente aquele senhor de cabelos e barbas brancas não se importava com isso.
Ilgon com o decorrer dos anos já havia aprendido a dosar seu tom de voz além do que podia ou não dizer para qualquer um que chegasse perguntando. De acordo com a situação, era preferível calar do que receber o pagamento, especialmente em se tratando de alguns dos moradores de Ciela. Os viajantes vêm e vão, mas aqueles que dependem da cidade precisam arcar com as conseqüências de seus atos.
- Temos pão, sopa, frutas e carne salgada – começou seu discurso indiferente, aproximando seu rosto oval de Enemaeon bem mais do que o agrado do mago considerava necessário – Mas quanto ao seu outro pedido, antes de falarmos de preços e tibares, é melhor eu saber com quem estou lidando, e o nome dessa certa pessoa.
- Meu nome é Enemaeon, sou um mago de Ridembar, e é tudo o que o senhor precisa saber no momento. Procuro por Galror Presas de Prata, alguém que você deve conhecer muito bem.
A simples menção de Presas de Prata fez com que o sangue fluísse do rosto do taverneiro, deixando-o pálido, e fazendo com que suas pernas fraquejassem. Tremendo um pouco, Ilgon estendeu uma das mãos e devolveu dois dos Tibares a Enemaeon. O suor escorria frio pelo rosto redondo, e o mago sentiu uma pontada de irritação apertando-lhe o peito.
- O seu pão e sopa estarão em sua mesa daqui a pouco, senhor. Trarei cerveja também, ou talvez prefira um pouco de vinho.
- Não estou pedindo que me leve até ele, senhor Ilgon – repetiu Enemaeon segurando o pulso engordurado do homem. Podia sentir que sua pele tremia ante o toque. E isso era bom, provava que não se enganara a viajar até ali atrás de Galror.– Apenas quero saber onde posso encontrá-lo.
- Não peça uma coisa dessas a mim, senhor Enemon.
- Enemaeon. – corrigiu o necromante sem desviar o olhar pétreo de Ilgon – Meu nome é Enemaeon.
- Perdão, senhor. Mas creia, se por ventura eu trouxer problemas a essa pessoa que você procura, eu e minha família seremos caçados até o fim de nossos dias.
- Louvável como demonstra preocupação primeiro com a própria pele, e só após com sua família. Mas creia que não estou caçando Galror, e sim preciso de seus serviços.
- Ele é um assassino, senhor! – gaguejou o taverneiro ainda mais lívido de temor.
- Sei disso. – respondeu o mago com um meio sorriso – preciso dele para matar alguém.
(…)
A baía do Mar de Flok, na desembocadura do Rio dos Deuses, é constantemente navegada por todo o tipo de embarcações provenientes do norte do mundo. Além destes, navios que estejam se preparando para a viagem rio acima até portos mais movimentados como na cidade de Gorendill, em Deheon, também eram bastante comuns. Porém, nestes novos tempos, onde há riqueza também existe a ganância. E os crimes.
E esta combinação de ouro e cobiça é um berço para piratas de todos os tipos. A proximidade do Mar Negro apenas piora a situação, aumentando consideravelmente a quantidade de embarcações clandestinas de corsários. Muitas eram as histórias contadas sobre abordagens de navios mercantes por mercenários piratas, mas poucas assustavam tanto quanto as ligadas ao Tortura.
Capitaneado pelo antigo corsário de Tapista Moranler Silverdal, um minotauro branco que, após obrigar seus superiores a literalmente engolirem a carta de corso com uma parte considerada por ele injusta da pilhagem; foi expulso da Marinha Pretoriana do Reino dos Minotauros. Desde então, transformou-se naquilo que os marinheiros minotauros mais temiam longe de suas águas.
Sobre a prancha de madeira enegrecida do Tortura, um elfo de cabelos negros presos em pequenas tranças por pedras azuis e verdes,equilibrava-se com a ponta da espada ferindo-lhe a garganta. Passo a passo, aproximava-se do fim do caminho que o levaria diretamente para o fundo do mar para banhar-se com os selakos.
- Isto é apenas um terrível engano, Moranler – falou o elfo que balançava ao sabor das ondas junto com todo o navio – Não poderíamos resolver esta situação de alguma outra maneira?
- O maior dos enganos foi ter aceitado um verme miserável como você no Tortura, Felrond. Mijo no dia que aceitei um elfo como membro da tripulação. E a única maneira de remediar isso é fazendo você andar na prancha.
- Acreditei que sua consideração por minha amizade me garantiria pelo menos uma passagem até o continente – tornou o elfo sentindo a ponta da espada enterrar-se mais fundo em sua pele. Não havia mais para onde recuar.
- Minha consideração evitou que sua pele fosse arrancada antes do mergulho, Felrond. – disse Moranler com um sorriso endurecido em sua cabeça táurica. Os anéis de ouro em seus chifres brilharam com a última luz da tarde e com uma nova estocada, pôs fim a caminhada do elfo, que quedou-se diretamente para as profundezas do mar. As risadas da tripulação irromperam quando o capitão ergueu os braços musculosos em sinal de descaso. Lentamente, os piratas regressaram aos seus afazeres, e o Tortura afastou-se da costa.
No mar, Felrond levou a mão à cintura, sentindo o formato circular do medalhão oculto em seu cinto. Sorrindo, fez um pequeno gracejo com os dedos ágeis de elfo, despedindo-se do Tortura e do Capitão Moranler. Havia conseguido o que queria, agora podia se concentrar no caminho que o levaria até a terra firme.
Ato II – Sobreviventes