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Publicação – Crônicas da Tormenta

Então, este é o segundo livro do qual participo, desta vez com um conto no Crônicas da Tormenta. Organizado por J.M Trevisanele reúne histórias que se passam no mundo de Arton escritas por vários autores distintos, e como não poderia deixar de ser, pessoas cuja distinção está acima de qualquer suspeita! Só tem fera na verdade.

São 14 histórias ao todo. Sou leitor assíduo da maioria dos autores, então imagina o quão feliz fiquei por fazer parte desse apanhado. O livro conta com textos de Leonel CaldelaRemo DisconziClaudio VillaAna Cristina RodriguesDouglas MCTRogerio SaladinoLeandro RadrakRaphael DracconAntonio Augusto ShaftielMarcelo Cassaro e J.M. Trevisan, além de mim. A apresentação foi feita pelo Gustavo Brauner e o prefácio por Eduardo Spohr. A capa é um show a parte de Greg Tocchini. Artista que graças a uma forcinha do editor colocou meu personagem no desenho, o pirata Julian Jean-Luc todo faceiro tocando violino.

Meu conto chama-se Ária Noturna, e narra a viagem do protagonista através de mares bravios até Ilha Pequena onde uma série de desventuras o aguardam. O livro já está em pré-venda, e pode ser comprado com frete grátis aqui.


Jogando e Andando – Vantagens Regionais

Vantagens Regionais são uma regra simples que surgiu há tempos para diferenciar os habitantes de diversas regiões que formam O Reinado, o maior conglomerado de nações de toda Arton, cenário de Tormenta criado pelo Trio Cassaro, Saladino e Trevisan há mais de dez anos. Tratam-se basicamente de pequenas vantagens mecânicas (em geral, bônus relativos à determinadas perícias) que procuram adaptar a realidade do personagem à região em que ele teria nascido ou passado uma parte de sua vida.

Mais do que mais uma fonte de poderes para os personagens, as Vantagens Regionais (que geralmente são gratuitas) não chegam a somar em bônus o equivalente a um único ponto de personagem. Porém, se bem escolhidas, são ferramentas importantes não apenas para o próprio jogador mas também para o mestre que consegue, através delas, colocar um pouco do cenário em que se joga em cada um dos personagens envolvidos.

A idéia é bem simples. Por exemplo, se você nasceu em um reino onde existe uma certa ligação com cavalos e ou algum outro tipo de animal de transporte, receber bônus em Montaria, uma especialização da perícia Animais (que, quanto especialização isolada, custa meros 3 XP) é mais do que lógica. Afinal, há uma grande possibilidade de que em algum momento de sua vida você tenha desenvolvido pelo menos algum contato com cavalos (ou seu correlato no mundo de jogo), com a prática da doma ou quem sabe já tenha até mesmo andado um pouco sobre o dorso de um animal.  Esta mesma lógica se aplica a grande maioria dos bônus recebidos.


O Enigma das Arcas Ato IV

Rumo a Cidade Flutuante

Um casco de navio emborcado e a deriva era tudo o que um observador desavisado poderia acreditar estar vendo diante da passagem do Serpente. E esta era exatamente a intenção de Garlor ao construí-lo. Coberto de lodo e liquens, a madeira escura semi-apodrecida da quilha avançava parcialmente afundada nas águas profundas do Rio dos Deuses. Mas em seu interior, o clérigo manobrava protegido e seco, observando sua rota através de um espelho d’água magicamente preparado.

- Foi um bom trabalho, este que você fez aqui, Enemaeon.

- Fala do espelho? Uma contribuição pequena se comparado com o todo deste navio. Ele é digno de pertencer a um clérigo da trapaça.

- Investi dez longos anos nele – falou Garlor visivelmente orgulhoso – Dezoito toneladas de madeira e ferro, movendo-se levemente através das profundezas graças aos elementais do ar que aprisionamos naquele artefato em Tyrondir.

- Ainda não acredito que aqueles clérigos entregaram aquilo de boa vontade para você.

- Bem, eu os enganei – disse Garlor entre uma gargalhada e outra – Um pouco de pirotecnia de sua parte e os clérigos acharam que eu era um enviado dos deuses. Dariam-me suas filhas por uma noite se eu pedisse.

- Se bem me lembro, você dormiu com elas mesmo sem pedir coisa alguma.

- Detalhes – respondeu o trapaceiro com uma piscadela – Sim, é um bom navio. Pena que só eu e você gostamos tanto dele. Os navios mercantes o odeiam.

- Surgindo do nada, afundando o oponente e recuperando os tesouros do navio submerso. Fica bastante claro para mim o motivo deste desafeto por parte dos mercadores. E para as autoridades, tudo isso não passa de entulho.

- Ou uma fera marinha. Os boatos estão começando a ficar mais criativos. Existe até uma recompensa para quem abater o monstro. Dez mil tibares.

- Oitenta mil tibares, na verdade Garlor – falou Enemaeon batendo-lhe nos ombros com o seu cajado de estimação, que carregava consigo o tempo inteiro. Podia parecer tolo a princípio, mas sem ele, Enemaeon simplesmente não conseguia fazer magia alguma. Era uma espécie de fetiche mágico, um ponto de concentração para que seu focus não ficasse disperso. Truque este sugerido por um de seus professores na Academia, anos antes, e que sempre apresentou bons resultados.

- Oitenta? Não chegava a tanto a última vez que ouvi.

- É claro que chegava, e você estava ciente deste valor. Tem tanto medo assim que eu lhe traia por causa de um valor tão ridículo sobre a sua cabeça? Há pelo menos três vezes esse valor nos porões. Sem contar os tesouros.

- Você já fez coisa pior no passado, Enemaeon. – foi a resposta de Garlor, e aquilo encerrou o assunto pelo menos por algum tempo.

(…)

O vulto branco e carmesim que era Liandra corria através das planícies repletas de bosques e pequenas florestas de Tollon. Alguns lenhadores que a avistaram correndo em lágrimas através da mata espalharam os boatos sobre uma Noiva Maldita, salpicada de sangue que trazia a morte. Estranhamente, pelos lugares que Liandra passava, realmente a morte se tornava mais palpável, apesar de manifestar-se apenas indiretamente. Um lenhador era atingido por uma árvore que caía, um doente finalmente sucumbia, uma complicação no parto trazia ao mundo uma criança morta.

Ela mesma não compreendia os motivos daquelas mortes, mas sabia que era a responsável. Também não sabia o que a levava a correr como se tudo o que devesse fazer fosse apenas isso. Avançar sem rumo, levando a morte e a dor ao mundo. Matando através dos bosques. Matando quem amava. Sangrando por dentro, mas sorrindo por fora.

Foi então que ouviu a música. Distante, muito além das árvores. O som a envolvia e a penetrava, através da pele e de seu sexo. Devorada, envolvida, Liandra correu ainda mais. A pele frágil ignorando os cortes e os espinhos, o vestido erguido até as coxas se esfacelava nos galhos e arbustos do caminho.

Conforme se aproximava, além da música, uma voz macia e melancólica passou a toca-la. Não a reconheceu, mas apaixonou-se por ela. Da mesma forma intensa que amara seu marido morto há poucas semanas. Sentiu-se suja por isso, e decidiu que deveria matar quem quer que fosse até se sentir limpa daquilo tudo. Até estar enfim em paz.

Sobre a colina, seu alvo coberto de negro, com longos cabelos embranquecidos agitados pela brisa da tarde, aguardava. Em suas mãos, um alaúde igualmente negro era dedilhado com perfeição. Sua platéia silenciosa arfava a cada nova nota, a cada sílaba por ele cantada. Liandra viu dezenas de outras como ela, vestidas de branco, salpicadas de sangue. A ira incontrolável desapareceu de seu âmago ao ouvir as palavras que o bardo declamava.

“Seco de inspiração, mas não de sentimento pelas tristezas que o convém tanto para assunto de poemas, o medíocre poeta o seu estilete molha, preparando-se…”. Músicas de morte, poemas fúnebres de um futuro próximo. O bardo sorriu com sua boca sem fundo, e os olhos negros como a noite, davam boas vindas ao seu séqüito profano. O som de sua própria gargalhada uniu-se ao coro de lamentações das noivas, e ao som tranqüilizador do alaúde.

(…)

- Uma coisa que não ficou exatamente clara para mim em Ralcazar foi a fama que lhe persegue agora – comentou Enemaeon trazendo novamente a conversa com Garlor à tona. Haviam percorrido quase trinta quilômetros através da foz do Rio dos Deuses, aproximando-se do segundo Priorado pertencente à Ciela, a cidade flutuante de Paltar. O clérigo olhou Enemaeon de soslaio, e com um suspiro respondeu.

- Matei muita gente nos últimos anos, velho amigo. Muito mais que o necessário.

- Por minha culpa, suponho. – falou o mago num murmúrio. A resposta de Garlor veio ainda mais baixa, engolida pelo som das ondas contra o casco do navio.

- Sim.

- Naquela noite, em Deheon, eu não pretendia…

- Não, eu sei que não – interrompeu Garlor – E é por isso que não o culpo. Sabíamos que haveria luta. Todos concordamos. Mas não consigo mais dar valor a vida. Desde que Sandra morreu… entende? Se ela teve que morrer, porque poupar qualquer um?

As memórias voltaram a mente de Enemaeon. Lembrou-se de detalhes a muito enterrados sobre aquela noite na taverna. Havia recém abandonado a Academia Arcana, expulso por mau comportamento e por trabalhos não autorizado no laboratório. Envolveu-se com o grupo de bandoleiros do qual Garlor Presas de Prata e Sandra Halden faziam parte. Juntos, saquearam e mataram por um longo tempo, até serem emboscados pela milícia imperial.

Quase todos os bandoleiros foram mortos ou aprisionados, sendo que do grupo com quase doze homens, apenas três conseguiram escapar. Feridos e sem nada além das vestes do corpo vagaram a esmo através das florestas, comendo capim e bebendo de poças criadas pela chuva até alcançarem uma taverna a beira de estrada. O plano parecia simples. Invadir, render os donos do lugar, roubar apenas o que precisavam e partir.

Inicialmente tudo havia dado certo, mas em certo momento, um dos homens presentes resolveu reagir, avançando contra Enemaeon. O mago não era capaz de fazer frente contra um oponente direto em combate físico, e Sandra partiu ao seu auxílio, dando as costas a um bêbado. Uma garrafa quebrada, um bêbado assustado e um golpe de sorte. Esta foi a combinação que pôs fim à vida de Sandra Halden.

Naquela mesma noite, após saquear a taverna, haviam amarrado todos os que lá estavam e incendiado o lugar. Ficaram ali, assistindo com lágrimas escorrendo fartas pelos rostos sofridos, até o último grito de agonia dos queimados fosse engolido pelo crepitar das chamas. Não que aquilo fosse trazer sua companheira de volta. Tampouco apaziguar a culpa que sentiam.

- Não espero mais pelo golpe pelas costas, Enemaeon – disse Garlor por fim – Os mato antes. Dormindo às vezes, para evitar qualquer imprevisto.

O mago sentia-se tão responsável por aquilo tudo que não teve forças para falar mais nada. Nem sobre a missão que colocaria em prática nos próximos dias, tampouco pelo objetivo egoísta que o motivava. Viu de relance, através do espelho d´água, que os telhados vagabundos e sujos de Paltar já eram visíveis, e se preparou para encontrar-se com o terceiro membro de seu grupo de busca.


O Enigma das Arcas – Ato III

Até que a Morte nos Separe

Liandra fitou-se mais uma vez no reflexo proporcionado pela luz da vela de encontro à única janela de vidro da casa em que se encontrava. Alisava com as mãos pequenas e brancas cada dobra do longo vestido, até que tudo estivesse aparentemente impecável. Cantarolava baixinho, apenas o suficiente para se fazer ouvir, mas sua atenção estava voltada para o quarto abaixo, na cozinha.

Havia preparado uma quantidade razoável de cozido de lebre, toicinho e peixe. Também, como de costume, preparara um chá forte de erva de cheiro e fervido a água do banho. Tudo estava pronto. Pela janela, pode ver que com as estrelas seu marido regressava. Trazia nas costas o machado com o qual trabalhava, como lenhador nas florestas de Tollon. Encabulada, tirou rapidamente o vestido e o escondeu no armário velho do quarto. Desceu as escadas a tempo de vê-lo entrar em casa.

- De novo com aquele vestido velho? – brincou Dario abrindo os braços.

- Ele me traz ótimas lembranças de nosso casamento – respondeu sorrindo. Liandra correu ao seu encontro e com um pequeno salto, abraçou-o e lhe beijou a face. Com uma cara de desagrado, Dario ergueu levemente o queixo. Liandra sorrindo beijou apaixonadamente o marido, em uma troca de carícias que perdurou ainda por alguns minutos. Enfim, ainda abraçados, conversaram sobre as amenidades do dia.

Esta rotina diária era uma constante nos últimos seis meses, após o casamento de Liandra e Dario. Ele, um lenhador por vocação. Um machado fora o primeiro presente que recebera dos pais, já aos oito anos. Ela, artesã, esculpia em madeira e era apaixonada por ela. Via formas e movimentos em raízes e velhos troncos, e tirava deles a inspiração para suas obras.

A casa de Liandra tornara-se relativamente conhecida em Follen devido às esculturas que preenchiam o pequeno jardim. Na verdade, ela própria ganhava muito mais dinheiro vendendo suas peças aos nobres do que o marido como lenhador. Porém, ele tinha muito orgulho de seu trabalho, e também o paradigma de que o homem deve sustentar a casa. Por isso, ela jamais exigiu que ele abandonasse seu trabalho, e ele tampouco fez qualquer menção a isso.

Sentaram-se despreocupados à mesa e comeram o jantar preparado por ela. No decorrer da refeição, trocaram olhares cúmplices que denunciavam o amor que sentiam um pelo outro, e após um banho quente na tina d’água, subiram em direção ao quarto. Amaram-se com o fervor dos apaixonados, e exaustos, cochilaram nos braços um do outro. Sobre a cômoda, o embrulho adquirido por Dario naquela manhã aguardava o despertar do casal.

Liandra provavelmente nunca mais esqueceria daquele presente.

(…)

Correndo o mais rápido que podia através das raízes e do lodo que formava o mangue no lado norte de Ciela, um homem sujo e coberto de terra fugia por sua vida. Em seu encalço, quatro dos homens da milícia da Cidade Tripla avançavam com a determinação de formigas. Traziam ainda um cão que saltitava através das poças e atoleiros com muito mais facilidade do que os soldados e suas armaduras.

Com uma certa dianteira, Garlor Presas de Prata dava-se o luxo de escolher sua rota de fuga. Havia marcado aquele caminho mentalmente, nas dezenas de vezes que precisou dele para escapar. O pântano formado pela curva do Rio dos Deuses em meio ao mangue ocultava suas pegadas, e o fedor pútrido que brotava da decomposição natural dos resíduos que ali vinham encontrar descanso faziam o mesmo com o seu cheiro.

O Pântano era um desafio e tanto para os maiores rastreadores, e uma benção para bandidos procurados como Garlor. Quase tudo o que entrava ali sumia, como por mágica.Além disso, as dificuldades do terreno logo acabavam com a vontade dos captores, que abandonavam as buscas e regressavam sujos e exaustos. Chapinhou por mais alguns metros até alcançar uma árvore de galhos grossos e retorcidos, caída em meio ao pântano. Sob ela, emborcado e afundado na lama em quase toda a sua extensão, um pequeno navio pesqueiro escorava o peso do tronco, impedindo que ambos afundassem completamente.

Garlor procurou em torno com os olhos afiados, e sorrindo, desviou-se de uma galhada coberta de espinhos e meteu seu corpo magro em uma fresta fina na embarcação. Ocultando-a em seguida, respirou enfim aliviado. Estava novamente em segurança. Tateou no escuro até o lampião, e com mãos hábeis, não tardou a iluminar todo o lugar com uma luz pálida, mas reconfortante.

O interior do casco estava seco e limpo. O resultado dos últimos saques havia sido empilhado perfeitamente em pequenos fardos, prontos para serem transportados ao menor sinal de adversidade. Uma rede, uma bacia com água e um arpão na parede ao fundo completavam todo o mobiliário do lugar. Garlor depositou o novo saque sobre a pilha, jogou a roupa imunda na bacia que logo ficou cheia de lama e deitou-se nu sobre a rede, balançando suave, buscando descansar o corpo.

No mesmo instante, sentiu o gélido toque de uma lâmina em sua garganta, apesar de não poder vê-la. Alguns trapos caíram sobre seu corpo, e estranhamente, um gato preto saltou através da abertura no teto, sobre a pilha dos saques e permaneceu ali, lambendo o próprio pelo. Garlor fez menção de se mover, mas a lâmina deslizou lentamente sobre a carne, e ele sentiu o fino fio de sangue correr por seu pescoço.

- Sabe muito bem que não vai sair dessa vivo, seja lá quem for… – ameaçou com a fúria estampada no rosto. Uma risada contida escapou do atacante, e em breve a gargalhada poderosa de Enemaeon preencheu toda a sala principal do navio. O punhal regressou a bainha, e o mago, desfazendo a magia de invisibilidade que o ocultava, chutou a pilha de tesouros assustando o gato e o assassino.

- Tem trabalhado bastante, pelo visto.

- Seu grande bastardo! – praguejou Garlor levando as mãos ao corte na garganta – Que tipo de piada foi essa? E como foi que chegou aqui?

- Um amigo seu taverneiro foi bastante solícito em me informar onde você escondia essa casca de noz. Sua vida custou apenas dez tibares, sabia?

- Conversa – praguejou Garlor – Ninguém sabia deste lugar. Apenas alguém que já conhecia o truque poderia me encontrar aqui. Gastou seu dinheiro apenas para saber que eu estava na droga deste mangue.

- Pois dentro em breve você vai poder trocar a umidade e o fedor dos mangues de Tollon por um clima mais condizente a sua posição.

- Esqueça. Prometi a mim mesmo nunca mais me envolver com você e seus negócios. E não pretendo voltar atrás em minha palavra.

- Para um clérigo de Hyninn, você está bastante adverso à possibilidade de roubar alguém.

- Hyninn? – respondeu o clérigo sorrindo – Nunca ouvi falar. É algum novo tipo de dança?

- Esta piada perde a graça depois das primeiras oitenta vezes que se ouve. – respondeu Enemaeon arremessando-lhe um pequeno saco de tecido escuro. No interior, Garlor encontrou um fragmento de ouro, aparentemente de um antigo medalhão.

- Isso é…

- A chave de Templo antigo, perdido no Deserto da Perdição.

- Já deve ter sido saqueado a esta altura. Geralmente os tesouros em templos abandonados já sumiram quando enfim temos conhecimento da existência deles.

- Não este. Ele tem um motivo especial para continuar oculto. Os próprios deuses o quiseram assim.

- Não contrario deuses maiores a pelo menos três anos – falou Garlor suspirando.

- Nunca é tarde para recomeçar – respondeu Enemaeon – Quando podemos partir?

- A maré sobe dentro de três horas. Se me der licença para me vestir e soltar o barco, estaremos a caminho antes de Tenebra dar lugar ao novo dia.

(…)

As mãos de Liandra novamente tocavam seu vestido de noiva, mas agora, ele estava sujo, manchado de sangue. Em seu pescoço, o presente que recebera de Dario reluzia ante a luz das velas. Um pequeno fragmento de ouro, parte de um medalhão maior. Sobre a cama, o marido jazia inerte, com o machado enterrado no crânio.


O Enigma das Arcas – Ato II

Três dias de viagem separavam o vilarejo de Petrus em Tollon da Cidade da Tríplice Fronteira, Ciela. Crescendo de forma desorganizada no ponto onde o Rio dos Deuses serve de barreira natural para os reinos de Tollon, Ahlen e Collen, Ciela acabou se tornando um reduto de miseráveis, punguistas e espertalhões. Exatamente o tipo de pessoa que Enemaeon procurava naquele momento.

Após o devido pagamento ao carroceiro, o mago respirou profundamente antes de atravessar o portão principal do Priorado de Racalzar. O velho condutor que o trouxe até ali sorriu com uma boca já sem dentes, e partiu no mesmo trote lento que manteve durante toda a jornada. Amaldiçoando seu retorno até aquela cidade, o necromante apressou-se em atravessar as alamedas sujas por excrementos e terra úmida e entrou em uma taverna de aspecto idêntico ou pior do que encontrara do lado de fora. O chão de terra batida coberto de feno estava impregnado de mofo e pulgas, e sob a única mesa vaga das três que completavam o mobiliário, um cão coberto de sarna se coçava alegremente.

Resistindo ao impulso de enchotar o cão, o mago sentou-se com as costas para a parede e aguardou pelo taverneiro. Antes deste se dar conta do novo cliente, porém, os latidos enfurecidos do cão se fizeram ouvir, chamando a atenção de todos os presentes. O próprio Enemaeon, entretanto, não precisou buscar a fonte da irritação do canino pulguento. Ele já sabia de quem se tratava.

Era o mesmo gato preto que o acompanhou durante toda a viagem, e já o importunava dias antes na estalagem em Garlon ao oeste de Tollon. Apesar de nem por um momento ter permitido que ele subisse ao carroção, por pelo menos três ou quatro vezes o mago tinha plena certeza de que havia passado por ele na estrada, empoleirado em um galho baixo ou caçando passarinhos nas moitas adjacentes.

- Três dias de viagem a pé são bastante extraordinários para um gato – comentou o necromante assistindo o avanço preguiçoso do felino. Ao mesmo tempo, o cão que antes ladrava havia se calado. Estudava o inimigo com uma curiosidade assustada, e um ganido de pavor escapou de sua garganta quando, com um salto preciso, o gato parou sobre o banco da mesa, olhando-o com seus olhos amarelos. O sabujo fugiu com o rabo entre as pernas no mesmo instante.

- Perdão pelo cão – disse o taverneiro que manuseava um pano enegrecido pela sujeira nas mãos igualmente imundas – Espero que isso não o tenha chateado.

- É certo que ficaria mais feliz se seu cão tivesse colocado o gato para correr, e não o contrário. – respondeu o mago indiferente ao bichano que se aninhava em suas pernas.

- Deseja algo para comer?

- Desde que não seja você o cozinheiro… senhor…

- Ilgon – respondeu o homem empertigando-se, ofendido pela grosseria do cliente. Entretanto, os três tibares que escaparam das longas mangas do traje de viagem de Enemaeon logo fizeram o sorriso do taverneiro voltar ao rosto, agora um pouco mais servil, dobrado pelo ouro – Quem cuida da cozinha é minha esposa, Sara. O trato com os clientes e com a bebida deixa nossas mãos neste estado, e então…

- Não é necessário que você entre em detalhes quanto a sua higiene pessoal, senhor Ilgon. Basta apenas que me traga algo para comer e que me ajude a encontrar uma certa pessoa, e logo mais duas destas moedas irão escorregar para seu bolso.

Perguntar sobre alguns dos habitantes “ilustres” de Ciela era bastante comum por parte de viajantes, mas também o era pela milícia. Geralmente tais pedidos careciam de alguma discrição tanto por parte do pedinte quanto do informante, especialmente para evitar que alguma palavra mal colocada acabasse custando o pescoço de ambos. Porém, aparentemente aquele senhor de cabelos e barbas brancas não se importava com isso.

Ilgon com o decorrer dos anos já havia aprendido a dosar seu tom de voz além do que podia ou não dizer para qualquer um que chegasse perguntando. De acordo com a situação, era preferível calar do que receber o pagamento, especialmente em se tratando de alguns dos moradores de Ciela. Os viajantes vêm e vão, mas aqueles que dependem da cidade precisam arcar com as conseqüências de seus atos.

- Temos pão, sopa, frutas e carne salgada – começou seu discurso indiferente, aproximando seu rosto oval de Enemaeon bem mais do que o agrado do mago considerava necessário – Mas quanto ao seu outro pedido, antes de falarmos de preços e tibares, é melhor eu saber com quem estou lidando, e o nome dessa certa pessoa.

- Meu nome é Enemaeon, sou um mago de Ridembar, e é tudo o que o senhor precisa saber no momento. Procuro por Galror Presas de Prata, alguém que você deve conhecer muito bem.

A simples menção de Presas de Prata fez com que o sangue fluísse do rosto do taverneiro, deixando-o pálido, e fazendo com que suas pernas fraquejassem. Tremendo um pouco, Ilgon estendeu uma das mãos e devolveu dois dos Tibares a Enemaeon. O suor escorria frio pelo rosto redondo, e o mago sentiu uma pontada de irritação apertando-lhe o peito.

- O seu pão e sopa estarão em sua mesa daqui a pouco, senhor. Trarei cerveja também, ou talvez prefira um pouco de vinho.

- Não estou pedindo que me leve até ele, senhor Ilgon – repetiu Enemaeon segurando o pulso engordurado do homem. Podia sentir que sua pele tremia ante o toque. E isso era bom, provava que não se enganara a viajar até ali atrás de Galror.– Apenas quero saber onde posso encontrá-lo.

- Não peça uma coisa dessas a mim, senhor Enemon.

- Enemaeon. – corrigiu o necromante sem desviar o olhar pétreo de Ilgon – Meu nome é Enemaeon.

- Perdão, senhor. Mas creia, se por ventura eu trouxer problemas a essa pessoa que você procura, eu e minha família seremos caçados até o fim de nossos dias.

- Louvável como demonstra preocupação primeiro com a própria pele, e só após com sua família. Mas creia que não estou caçando Galror, e sim preciso de seus serviços.

- Ele é um assassino, senhor! – gaguejou o taverneiro ainda mais lívido de temor.

- Sei disso. – respondeu o mago com um meio sorriso – preciso dele para matar alguém.

(…)

A baía do Mar de Flok, na desembocadura do Rio dos Deuses, é constantemente navegada por todo o tipo de embarcações provenientes do norte do mundo. Além destes, navios que estejam se preparando para a viagem rio acima até portos mais movimentados como na cidade de Gorendill, em Deheon, também eram bastante comuns. Porém, nestes novos tempos, onde há riqueza também existe a ganância. E os crimes.

E esta combinação de ouro e cobiça é um berço para piratas de todos os tipos. A proximidade do Mar Negro apenas piora a situação, aumentando consideravelmente a quantidade de embarcações clandestinas de corsários. Muitas eram as histórias contadas sobre abordagens de navios mercantes por mercenários piratas, mas poucas assustavam tanto quanto as ligadas ao Tortura.

Capitaneado pelo antigo corsário de Tapista Moranler Silverdal, um minotauro branco que, após obrigar seus superiores a literalmente engolirem a carta de corso com uma parte considerada por ele injusta da pilhagem; foi expulso da Marinha Pretoriana do Reino dos Minotauros. Desde então, transformou-se naquilo que os marinheiros minotauros mais temiam longe de suas águas.

Sobre a prancha de madeira enegrecida do Tortura, um elfo de cabelos negros presos em pequenas tranças por pedras azuis e verdes,equilibrava-se com a ponta da espada ferindo-lhe a garganta. Passo a passo, aproximava-se do fim do caminho que o levaria diretamente para o fundo do mar para banhar-se com os selakos.

- Isto é apenas um terrível engano, Moranler – falou o elfo que balançava ao sabor das ondas junto com todo o navio – Não poderíamos resolver esta situação de alguma outra maneira?

- O maior dos enganos foi ter aceitado um verme miserável como você no Tortura, Felrond. Mijo no dia que aceitei um elfo como membro da tripulação. E a única maneira de remediar isso é fazendo você andar na prancha.

- Acreditei que sua consideração por minha amizade me garantiria pelo menos uma passagem até o continente – tornou o elfo sentindo a ponta da espada enterrar-se mais fundo em sua pele. Não havia mais para onde recuar.

- Minha consideração evitou que sua pele fosse arrancada antes do mergulho, Felrond. – disse Moranler com um sorriso endurecido em sua cabeça táurica. Os anéis de ouro em seus chifres brilharam com a última luz da tarde e com uma nova estocada, pôs fim a caminhada do elfo, que quedou-se diretamente para as profundezas do mar. As risadas da tripulação irromperam quando o capitão ergueu os braços musculosos em sinal de descaso. Lentamente, os piratas regressaram aos seus afazeres, e o Tortura afastou-se da costa.

No mar, Felrond levou a mão à cintura, sentindo o formato circular do medalhão oculto em seu cinto. Sorrindo, fez um pequeno gracejo com os dedos ágeis de elfo, despedindo-se do Tortura e do Capitão Moranler. Havia conseguido o que queria, agora podia se concentrar no caminho que o levaria até a terra firme.

Ato II – Sobreviventes


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