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O Enigma das Arcas Ato IV

Rumo a Cidade Flutuante

Um casco de navio emborcado e a deriva era tudo o que um observador desavisado poderia acreditar estar vendo diante da passagem do Serpente. E esta era exatamente a intenção de Garlor ao construí-lo. Coberto de lodo e liquens, a madeira escura semi-apodrecida da quilha avançava parcialmente afundada nas águas profundas do Rio dos Deuses. Mas em seu interior, o clérigo manobrava protegido e seco, observando sua rota através de um espelho d’água magicamente preparado.

- Foi um bom trabalho, este que você fez aqui, Enemaeon.

- Fala do espelho? Uma contribuição pequena se comparado com o todo deste navio. Ele é digno de pertencer a um clérigo da trapaça.

- Investi dez longos anos nele – falou Garlor visivelmente orgulhoso – Dezoito toneladas de madeira e ferro, movendo-se levemente através das profundezas graças aos elementais do ar que aprisionamos naquele artefato em Tyrondir.

- Ainda não acredito que aqueles clérigos entregaram aquilo de boa vontade para você.

- Bem, eu os enganei – disse Garlor entre uma gargalhada e outra – Um pouco de pirotecnia de sua parte e os clérigos acharam que eu era um enviado dos deuses. Dariam-me suas filhas por uma noite se eu pedisse.

- Se bem me lembro, você dormiu com elas mesmo sem pedir coisa alguma.

- Detalhes – respondeu o trapaceiro com uma piscadela – Sim, é um bom navio. Pena que só eu e você gostamos tanto dele. Os navios mercantes o odeiam.

- Surgindo do nada, afundando o oponente e recuperando os tesouros do navio submerso. Fica bastante claro para mim o motivo deste desafeto por parte dos mercadores. E para as autoridades, tudo isso não passa de entulho.

- Ou uma fera marinha. Os boatos estão começando a ficar mais criativos. Existe até uma recompensa para quem abater o monstro. Dez mil tibares.

- Oitenta mil tibares, na verdade Garlor – falou Enemaeon batendo-lhe nos ombros com o seu cajado de estimação, que carregava consigo o tempo inteiro. Podia parecer tolo a princípio, mas sem ele, Enemaeon simplesmente não conseguia fazer magia alguma. Era uma espécie de fetiche mágico, um ponto de concentração para que seu focus não ficasse disperso. Truque este sugerido por um de seus professores na Academia, anos antes, e que sempre apresentou bons resultados.

- Oitenta? Não chegava a tanto a última vez que ouvi.

- É claro que chegava, e você estava ciente deste valor. Tem tanto medo assim que eu lhe traia por causa de um valor tão ridículo sobre a sua cabeça? Há pelo menos três vezes esse valor nos porões. Sem contar os tesouros.

- Você já fez coisa pior no passado, Enemaeon. – foi a resposta de Garlor, e aquilo encerrou o assunto pelo menos por algum tempo.

(…)

O vulto branco e carmesim que era Liandra corria através das planícies repletas de bosques e pequenas florestas de Tollon. Alguns lenhadores que a avistaram correndo em lágrimas através da mata espalharam os boatos sobre uma Noiva Maldita, salpicada de sangue que trazia a morte. Estranhamente, pelos lugares que Liandra passava, realmente a morte se tornava mais palpável, apesar de manifestar-se apenas indiretamente. Um lenhador era atingido por uma árvore que caía, um doente finalmente sucumbia, uma complicação no parto trazia ao mundo uma criança morta.

Ela mesma não compreendia os motivos daquelas mortes, mas sabia que era a responsável. Também não sabia o que a levava a correr como se tudo o que devesse fazer fosse apenas isso. Avançar sem rumo, levando a morte e a dor ao mundo. Matando através dos bosques. Matando quem amava. Sangrando por dentro, mas sorrindo por fora.

Foi então que ouviu a música. Distante, muito além das árvores. O som a envolvia e a penetrava, através da pele e de seu sexo. Devorada, envolvida, Liandra correu ainda mais. A pele frágil ignorando os cortes e os espinhos, o vestido erguido até as coxas se esfacelava nos galhos e arbustos do caminho.

Conforme se aproximava, além da música, uma voz macia e melancólica passou a toca-la. Não a reconheceu, mas apaixonou-se por ela. Da mesma forma intensa que amara seu marido morto há poucas semanas. Sentiu-se suja por isso, e decidiu que deveria matar quem quer que fosse até se sentir limpa daquilo tudo. Até estar enfim em paz.

Sobre a colina, seu alvo coberto de negro, com longos cabelos embranquecidos agitados pela brisa da tarde, aguardava. Em suas mãos, um alaúde igualmente negro era dedilhado com perfeição. Sua platéia silenciosa arfava a cada nova nota, a cada sílaba por ele cantada. Liandra viu dezenas de outras como ela, vestidas de branco, salpicadas de sangue. A ira incontrolável desapareceu de seu âmago ao ouvir as palavras que o bardo declamava.

“Seco de inspiração, mas não de sentimento pelas tristezas que o convém tanto para assunto de poemas, o medíocre poeta o seu estilete molha, preparando-se…”. Músicas de morte, poemas fúnebres de um futuro próximo. O bardo sorriu com sua boca sem fundo, e os olhos negros como a noite, davam boas vindas ao seu séqüito profano. O som de sua própria gargalhada uniu-se ao coro de lamentações das noivas, e ao som tranqüilizador do alaúde.

(…)

- Uma coisa que não ficou exatamente clara para mim em Ralcazar foi a fama que lhe persegue agora – comentou Enemaeon trazendo novamente a conversa com Garlor à tona. Haviam percorrido quase trinta quilômetros através da foz do Rio dos Deuses, aproximando-se do segundo Priorado pertencente à Ciela, a cidade flutuante de Paltar. O clérigo olhou Enemaeon de soslaio, e com um suspiro respondeu.

- Matei muita gente nos últimos anos, velho amigo. Muito mais que o necessário.

- Por minha culpa, suponho. – falou o mago num murmúrio. A resposta de Garlor veio ainda mais baixa, engolida pelo som das ondas contra o casco do navio.

- Sim.

- Naquela noite, em Deheon, eu não pretendia…

- Não, eu sei que não – interrompeu Garlor – E é por isso que não o culpo. Sabíamos que haveria luta. Todos concordamos. Mas não consigo mais dar valor a vida. Desde que Sandra morreu… entende? Se ela teve que morrer, porque poupar qualquer um?

As memórias voltaram a mente de Enemaeon. Lembrou-se de detalhes a muito enterrados sobre aquela noite na taverna. Havia recém abandonado a Academia Arcana, expulso por mau comportamento e por trabalhos não autorizado no laboratório. Envolveu-se com o grupo de bandoleiros do qual Garlor Presas de Prata e Sandra Halden faziam parte. Juntos, saquearam e mataram por um longo tempo, até serem emboscados pela milícia imperial.

Quase todos os bandoleiros foram mortos ou aprisionados, sendo que do grupo com quase doze homens, apenas três conseguiram escapar. Feridos e sem nada além das vestes do corpo vagaram a esmo através das florestas, comendo capim e bebendo de poças criadas pela chuva até alcançarem uma taverna a beira de estrada. O plano parecia simples. Invadir, render os donos do lugar, roubar apenas o que precisavam e partir.

Inicialmente tudo havia dado certo, mas em certo momento, um dos homens presentes resolveu reagir, avançando contra Enemaeon. O mago não era capaz de fazer frente contra um oponente direto em combate físico, e Sandra partiu ao seu auxílio, dando as costas a um bêbado. Uma garrafa quebrada, um bêbado assustado e um golpe de sorte. Esta foi a combinação que pôs fim à vida de Sandra Halden.

Naquela mesma noite, após saquear a taverna, haviam amarrado todos os que lá estavam e incendiado o lugar. Ficaram ali, assistindo com lágrimas escorrendo fartas pelos rostos sofridos, até o último grito de agonia dos queimados fosse engolido pelo crepitar das chamas. Não que aquilo fosse trazer sua companheira de volta. Tampouco apaziguar a culpa que sentiam.

- Não espero mais pelo golpe pelas costas, Enemaeon – disse Garlor por fim – Os mato antes. Dormindo às vezes, para evitar qualquer imprevisto.

O mago sentia-se tão responsável por aquilo tudo que não teve forças para falar mais nada. Nem sobre a missão que colocaria em prática nos próximos dias, tampouco pelo objetivo egoísta que o motivava. Viu de relance, através do espelho d´água, que os telhados vagabundos e sujos de Paltar já eram visíveis, e se preparou para encontrar-se com o terceiro membro de seu grupo de busca.


O Enigma das Arcas – Ato II

Três dias de viagem separavam o vilarejo de Petrus em Tollon da Cidade da Tríplice Fronteira, Ciela. Crescendo de forma desorganizada no ponto onde o Rio dos Deuses serve de barreira natural para os reinos de Tollon, Ahlen e Collen, Ciela acabou se tornando um reduto de miseráveis, punguistas e espertalhões. Exatamente o tipo de pessoa que Enemaeon procurava naquele momento.

Após o devido pagamento ao carroceiro, o mago respirou profundamente antes de atravessar o portão principal do Priorado de Racalzar. O velho condutor que o trouxe até ali sorriu com uma boca já sem dentes, e partiu no mesmo trote lento que manteve durante toda a jornada. Amaldiçoando seu retorno até aquela cidade, o necromante apressou-se em atravessar as alamedas sujas por excrementos e terra úmida e entrou em uma taverna de aspecto idêntico ou pior do que encontrara do lado de fora. O chão de terra batida coberto de feno estava impregnado de mofo e pulgas, e sob a única mesa vaga das três que completavam o mobiliário, um cão coberto de sarna se coçava alegremente.

Resistindo ao impulso de enchotar o cão, o mago sentou-se com as costas para a parede e aguardou pelo taverneiro. Antes deste se dar conta do novo cliente, porém, os latidos enfurecidos do cão se fizeram ouvir, chamando a atenção de todos os presentes. O próprio Enemaeon, entretanto, não precisou buscar a fonte da irritação do canino pulguento. Ele já sabia de quem se tratava.

Era o mesmo gato preto que o acompanhou durante toda a viagem, e já o importunava dias antes na estalagem em Garlon ao oeste de Tollon. Apesar de nem por um momento ter permitido que ele subisse ao carroção, por pelo menos três ou quatro vezes o mago tinha plena certeza de que havia passado por ele na estrada, empoleirado em um galho baixo ou caçando passarinhos nas moitas adjacentes.

- Três dias de viagem a pé são bastante extraordinários para um gato – comentou o necromante assistindo o avanço preguiçoso do felino. Ao mesmo tempo, o cão que antes ladrava havia se calado. Estudava o inimigo com uma curiosidade assustada, e um ganido de pavor escapou de sua garganta quando, com um salto preciso, o gato parou sobre o banco da mesa, olhando-o com seus olhos amarelos. O sabujo fugiu com o rabo entre as pernas no mesmo instante.

- Perdão pelo cão – disse o taverneiro que manuseava um pano enegrecido pela sujeira nas mãos igualmente imundas – Espero que isso não o tenha chateado.

- É certo que ficaria mais feliz se seu cão tivesse colocado o gato para correr, e não o contrário. – respondeu o mago indiferente ao bichano que se aninhava em suas pernas.

- Deseja algo para comer?

- Desde que não seja você o cozinheiro… senhor…

- Ilgon – respondeu o homem empertigando-se, ofendido pela grosseria do cliente. Entretanto, os três tibares que escaparam das longas mangas do traje de viagem de Enemaeon logo fizeram o sorriso do taverneiro voltar ao rosto, agora um pouco mais servil, dobrado pelo ouro – Quem cuida da cozinha é minha esposa, Sara. O trato com os clientes e com a bebida deixa nossas mãos neste estado, e então…

- Não é necessário que você entre em detalhes quanto a sua higiene pessoal, senhor Ilgon. Basta apenas que me traga algo para comer e que me ajude a encontrar uma certa pessoa, e logo mais duas destas moedas irão escorregar para seu bolso.

Perguntar sobre alguns dos habitantes “ilustres” de Ciela era bastante comum por parte de viajantes, mas também o era pela milícia. Geralmente tais pedidos careciam de alguma discrição tanto por parte do pedinte quanto do informante, especialmente para evitar que alguma palavra mal colocada acabasse custando o pescoço de ambos. Porém, aparentemente aquele senhor de cabelos e barbas brancas não se importava com isso.

Ilgon com o decorrer dos anos já havia aprendido a dosar seu tom de voz além do que podia ou não dizer para qualquer um que chegasse perguntando. De acordo com a situação, era preferível calar do que receber o pagamento, especialmente em se tratando de alguns dos moradores de Ciela. Os viajantes vêm e vão, mas aqueles que dependem da cidade precisam arcar com as conseqüências de seus atos.

- Temos pão, sopa, frutas e carne salgada – começou seu discurso indiferente, aproximando seu rosto oval de Enemaeon bem mais do que o agrado do mago considerava necessário – Mas quanto ao seu outro pedido, antes de falarmos de preços e tibares, é melhor eu saber com quem estou lidando, e o nome dessa certa pessoa.

- Meu nome é Enemaeon, sou um mago de Ridembar, e é tudo o que o senhor precisa saber no momento. Procuro por Galror Presas de Prata, alguém que você deve conhecer muito bem.

A simples menção de Presas de Prata fez com que o sangue fluísse do rosto do taverneiro, deixando-o pálido, e fazendo com que suas pernas fraquejassem. Tremendo um pouco, Ilgon estendeu uma das mãos e devolveu dois dos Tibares a Enemaeon. O suor escorria frio pelo rosto redondo, e o mago sentiu uma pontada de irritação apertando-lhe o peito.

- O seu pão e sopa estarão em sua mesa daqui a pouco, senhor. Trarei cerveja também, ou talvez prefira um pouco de vinho.

- Não estou pedindo que me leve até ele, senhor Ilgon – repetiu Enemaeon segurando o pulso engordurado do homem. Podia sentir que sua pele tremia ante o toque. E isso era bom, provava que não se enganara a viajar até ali atrás de Galror.– Apenas quero saber onde posso encontrá-lo.

- Não peça uma coisa dessas a mim, senhor Enemon.

- Enemaeon. – corrigiu o necromante sem desviar o olhar pétreo de Ilgon – Meu nome é Enemaeon.

- Perdão, senhor. Mas creia, se por ventura eu trouxer problemas a essa pessoa que você procura, eu e minha família seremos caçados até o fim de nossos dias.

- Louvável como demonstra preocupação primeiro com a própria pele, e só após com sua família. Mas creia que não estou caçando Galror, e sim preciso de seus serviços.

- Ele é um assassino, senhor! – gaguejou o taverneiro ainda mais lívido de temor.

- Sei disso. – respondeu o mago com um meio sorriso – preciso dele para matar alguém.

(…)

A baía do Mar de Flok, na desembocadura do Rio dos Deuses, é constantemente navegada por todo o tipo de embarcações provenientes do norte do mundo. Além destes, navios que estejam se preparando para a viagem rio acima até portos mais movimentados como na cidade de Gorendill, em Deheon, também eram bastante comuns. Porém, nestes novos tempos, onde há riqueza também existe a ganância. E os crimes.

E esta combinação de ouro e cobiça é um berço para piratas de todos os tipos. A proximidade do Mar Negro apenas piora a situação, aumentando consideravelmente a quantidade de embarcações clandestinas de corsários. Muitas eram as histórias contadas sobre abordagens de navios mercantes por mercenários piratas, mas poucas assustavam tanto quanto as ligadas ao Tortura.

Capitaneado pelo antigo corsário de Tapista Moranler Silverdal, um minotauro branco que, após obrigar seus superiores a literalmente engolirem a carta de corso com uma parte considerada por ele injusta da pilhagem; foi expulso da Marinha Pretoriana do Reino dos Minotauros. Desde então, transformou-se naquilo que os marinheiros minotauros mais temiam longe de suas águas.

Sobre a prancha de madeira enegrecida do Tortura, um elfo de cabelos negros presos em pequenas tranças por pedras azuis e verdes,equilibrava-se com a ponta da espada ferindo-lhe a garganta. Passo a passo, aproximava-se do fim do caminho que o levaria diretamente para o fundo do mar para banhar-se com os selakos.

- Isto é apenas um terrível engano, Moranler – falou o elfo que balançava ao sabor das ondas junto com todo o navio – Não poderíamos resolver esta situação de alguma outra maneira?

- O maior dos enganos foi ter aceitado um verme miserável como você no Tortura, Felrond. Mijo no dia que aceitei um elfo como membro da tripulação. E a única maneira de remediar isso é fazendo você andar na prancha.

- Acreditei que sua consideração por minha amizade me garantiria pelo menos uma passagem até o continente – tornou o elfo sentindo a ponta da espada enterrar-se mais fundo em sua pele. Não havia mais para onde recuar.

- Minha consideração evitou que sua pele fosse arrancada antes do mergulho, Felrond. – disse Moranler com um sorriso endurecido em sua cabeça táurica. Os anéis de ouro em seus chifres brilharam com a última luz da tarde e com uma nova estocada, pôs fim a caminhada do elfo, que quedou-se diretamente para as profundezas do mar. As risadas da tripulação irromperam quando o capitão ergueu os braços musculosos em sinal de descaso. Lentamente, os piratas regressaram aos seus afazeres, e o Tortura afastou-se da costa.

No mar, Felrond levou a mão à cintura, sentindo o formato circular do medalhão oculto em seu cinto. Sorrindo, fez um pequeno gracejo com os dedos ágeis de elfo, despedindo-se do Tortura e do Capitão Moranler. Havia conseguido o que queria, agora podia se concentrar no caminho que o levaria até a terra firme.

Ato II – Sobreviventes


O Enigma das Arcas – Ato I

Em alguns momentos durante a noite, as sombras em torno de Enemaeon de Ridembar se tornavam mais espessas, sufocando-o em lampejos fúnebres de seu próprio destino. Via-se enclausurado em um sarcófago de pedra carmesim que pulsava malignamente, como olhos velando seu sono. Não se movia, sequer respirava, mas estava vivo de alguma forma. Profundamente mergulhado em sono eterno, apodrecendo com as mãos crispadas ante o peito. A carne se transformava em ossos, e os ossos em pó. Só então, após decompor-se completamente é que a dor lhe atingia.

Sua própria alma passava a ser sugada pela pedra, escorrendo e deformando-se em um misto de agonia e solidão tão intensas que o traziam de volta à realidade, banhado em suor e sentado de ímpeto em sua cama. Esta seqüência empírica lhe assaltava quase todas noites, e não fora diferente naquela.

Nos seus pés, o gato negro desperto pelo sobressalto se espreguiçava de forma lenta, e depois se sentava majestosamente, observando-o. Lembrava uma velha esfinge – foi o pensamento que o assaltou. Odiava aquele bicho e a forma como ele aparentemente lhe vigiava, mas não gostava de pensar muito nisso. Desde que ele surgiu há quatro dias, tentou livrar-se dele várias vezes – mas nunca de forma definitiva.

Mesmo assim o gato era o menor de seus problemas, mas não o último. Havia quase dois meses desde que encontrara com Merodach pela primeira e última vez, e a breve lembrança já o fizeram instintivamente levar a mão ao peito. Seu coração não batia. Continuava vivo, com todas as implicações que esta condição apresentava. Necessitava comer, dormir e efetuar as demais atividades que o classificavam como um homem comum. Entretanto, não havia mais nada comum em sua vida.

O ritual que trouxe Merodach dos planos inferiores fora realizado de forma metódica e sem falhas. Perfeito, em todos os aspectos, e Enemaeon sabia disso. Ser perfeccionista era apenas uma das muitas características da qual se orgulhava e apesar de não ser um exibicionista, sentia um prazer mórbido quando estava certo. E o ritual era o certo sem dúvidas. Os procedimentos foram impecáveis. O problema todo não estava no ritual em si. A fatalidade que o acometera foi porque atraíra o demônio errado. Um muito mais forte e poderoso do que pretendia inicialmente.

Fatalidades. Tornaram-se extremamente comuns desde então.

O demônio escarneceu das proteções erguidas previamente, agarrou o mago pelo pescoço e arrancou seu coração. No lugar deixou uma pequena lembrança da inesperada visita. Uma pedra infernal chamada Chama do Abismo que se alimentava da maldade. E agora, alguém que apenas vivia em benefício próprio deveria aprender a ser magnânimo com a até então inócua e insignificante presença de outros seres vivos naquele mundo. Apenas se realizasse um ato de estrema bondade seria absolvido, e a pedra finalmente terminaria de bater.

Provavelmente seu corpo pereceria, mas a alma estaria salva, e por um lado aquilo já seria relativamente satisfatório. Poderia, ainda, tentar enganar o demônio e mata-lo quando a hora chegasse. Isso provavelmente também acabaria com a sua vida, mas seria um pouco mais humano deliciar-se com este tipo de certeza. Danaria eternamente no inferno, mas o responsável já não mais estaria vivo para escarnecer dele. Opções.

Ergueu-se já sem sono, ou pelo menos com a menor vontade de repetir as sensações que os seus sonhos evocavam – pelo menos por aquela noite – e passou a concentrar-se em alguns dos tomos que levava consigo. Organizou-os à luz da lua de forma aleatória sobre a mesa, e então acendeu o lampião. A luz fraca espalhou-se pelo cômodo simples da estalagem mostrando as paredes sujas salpicadas de cal e as sombras que se projetavam nas telhas de barro cozido passaram a dançar de acordo com as evoluções da chama.

Abriu o tomo maior que carregava e desenrolou um velho papiro conseguido dias antes em Vectora. As letras estavam quase apagadas, e toda uma parte se perdera em um estranho e inexplicável chamuscado que devorava toda a extremidade superior do papel. Estava traduzindo o tomo já há alguns dias, mas ainda não conseguira passar da segunda linha. O idioma abissal possuía poucos adeptos em Arton já que a grande maioria dos mortos não fala.

Quando revirou outro dos seus livros em busca da letra correspondente à figura de um tipo que se assemelhava a um crocodilo com chifres, o gato saltou sobre a mesa de maneira ágil mas não delicada, derrubando a tinta sobre seu grimório. Teve ímpeto de esganar o animal ali mesmo, mas suspirando profundamente, apenas o enxotou do quarto, trancando a porta atrás de si. Rangeu os dentes de raiva e retornou ao trabalho. Os motivos de Merodach passavam a fazer sentido.

Um demônio nunca jogava para perder. Se a melhor maneira de pegar alguém era exigindo que ele fosse bom, porque não faze-lo? Enemaeon era um mago das trevas arrogante e que não media esforços para conquistar poder. Ele não era exatamente maligno, mas não se encaixava de forma alguma no estereótipo de uma pessoa boa. Ainda de encontro à porta, as mãos vacilaram em direção ao peito, e uma leve pontada se espalhou através de seu corpo numa breve torrente de dor.

Se seguisse seus próprios instintos morreria e seria escravo de Merodach para sempre. Um morto vivo privado de sua alma, destinado a sofrer e chorar para sempre os seus próprios erros do passado. Merecia aquele destino, talvez, mas não era um homem que se conformava facilmente. Buscou controlar sua respiração e retornou até o pergaminho sobre a mesa. Releu o que já conseguira até então e um sorriso lhe tomou o rosto.

“Merodach, pai do mal
Sejas para sempre temido
Entre as sete arcas da morte
Guardadas no túmulo de…”

O pergaminho era legítimo. E o levaria até um dos templos abandonados do demônio em Arton. Enemaeon virou-se em direção a janela do quarto e viu que o gato estava lá, encarando-o com aquele par de olhos amarelos enquanto lambia a própria pata. Agir de acordo com o que acreditava poderia ser considerado um ato de vilania aos olhos comuns. Mas naquele momento ele estava apenas querendo saber com o que estaria lidando. Aprender.

- Teremos uma longa viagem pelo visto, bichano – disse satisfeito, encontrando o significado para o crocodilo de chifres – Guardadas no túmulo de… Al-kapeera.

Os olhos ágeis de Enemaeon correram através das linhas do livro, lendo sobre Al-kapeera ainda em voz alta. Talvez por algum tipo de coincidência macabra, neste mesmo momento a luz da lua fora eclipsada pelas nuvens negras que avançavam. O trovejar de uma tempestade distante ressoava conforme as palavras brotavam de sua boca. O gato, assustado, saltou do beiral da janela e se escondeu sob a cama, deixando apenas o reflexo da luz do lampião em seus olhos manter viva a lembrança de sua presença.

- Al-Kapeera fora um guerreiro sagrado, servo dos deuses. Por muitos anos foi o responsável pelo templo que viria a se tornar seu túmulo, guardando as sete arcas que levam os Segredos de Marah, deusa da paz.

O livro foi fechado em um único rompante de excitação. Segredos de uma divindade ligada ao amor e a paz, protegendo o sono de um demônio era algo inusitado. Afastando os demais tomos de sua mesa, Enemaeon concentrou-se no pergaminho original. Reconhecera um detalhe imprescindível para sua demanda ali mesmo, diante de si. Um novo trovejar arrancou um miado assustado do gato que se ocultou completamente nas sombras. Àquela hora, os únicos olhos que brilhavam na noite eram os do mago. Em um canto quase deteriorado do pergaminho, a garatuja do autor deixava claro que estava na pista certa…

Al-Kapeera, Paladino dos deuses.
Deserto da Perdição.

Ato Primeiro – A Estalagem


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