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Ilustrando 007


Ilustrando 003


Sombras em Deanor 003

Acusações

- Ele foi envenenado! – Concluiu um velho soldado graduado analisando o corpo inerte de Ivan, sem ousar tocá-lo. Pessoas velhas costumam ter um medo irracional da morte, e mesmo convivendo com ela acabam criando alguns rituais que não ousam desrespeitar. Era como se a morte ainda estivesse ali rondando, e poderia pensar em poupar uma nova viagem e já levar mais alguém consigo.

-Yius, bendita seja sua justiça! – exclamou o taverneiro aproximando-se perplexo do corpo agora inerte. Ao passo que Durio tremia. Suas mãos ainda em parte enroladas em sua inseparável toalha de limpar mesas que não estavam sujas. Mas seu curioso ímpeto foi prontamente impedido por outro dos guardas que o empurrou de forma violenta para próximo ao balcão.

- Parado ai velho! – bramiu o homem em clara censura, os olhos faiscando de ira – Não se aproxime!

- Eu só queria ver o que está acontecendo, garoto! – disse o taverneiro gorducho ainda sem compreender até que ponto aquilo tudo o afetaria. Em sua ingenuidade inocente, não se dera conta do quanto estava enrascado, pelo menos até as palavras duras chegarem aos seus ouvidos pela voz de outro oficial, este de maior patente, que irrompera pela porta como que atraído pelo cheiro da morte – Está acontecendo o óbvio Durio – Você o matou!

- Eu? Mas eu não! Como eu poderia?

- Fique calado, por favor! – tornou o mesmo estranho entrante, que invadia a taverna como se chegado de um pesadelo recém iniciado e que ainda estava muito longe de acabar. – Como teve coragem de fazer isso com um dos nossos? Envenenar sua bebida, para que ele morresse sem honra como um animal?

Dois dos soldados que ali estavam se entreolharam e então assentiram, concordando com as palavras do capitão. Ninguém além do taverneiro e do cadáver tocara naquela bebida. Durio ainda tentou se explicar gaguejando mais do que efetivamente dizendo alguma coisa, mas o capitão da guarda avançou em sua direção prestes a socar seu rosto se ele dissesse mais uma única palavra. Nesta altura ninguém na taverna comia coisa alguma, e algumas pessoas inclusive se punham a vomitar o que já haviam ingerido.

- Esperem – interrompeu finalmente Hector, abandonando sua xícara já vazia sobre a mesa e avançando em direção a tropa. O capitão o olhou de forma fria, e completou seu breve reconhecimento com um sorriso irônico de desdém. Conhecia Hector e sua fama. Não era ninguém que merecia qualquer atenção maior. – Que provas vocês tem de que o crime foi cometido por ele?

- E quem mais teria sido soldado? – perguntou a mulher de vermelho com lágrimas nos olhos e a voz rouca de tanto gritar. Entrecortada por soluços e gemidos, ainda se mantinha agarrada ao corpo de Ivan sem conseguir entretanto movê-lo daquela estranha posição que os espasmos haviam malignamente moldado – Ninguém mais tocou na bebida dele!

- Tem certeza moça? – inquiriu Hector novamente, ajoelhando-se e aproximando seu rosto do dela muito mais do que poderia sem constrangê-la. Fitando seus olhos castanhos, o guerreiro falava com aquela voz arrastada que acabava se tornando um suplício insuportável para a maioria dos ouvintes. Hector tinha seu próprio ritmo – Esta é uma acusação muito grave.

Estava do lado dele o tempo todo – respondeu ela com uma mistura de medo e coragem, como se estivesse apostando tudo naquele momento – Ninguém mais se aproximou de nós.

Hector sentiu que tudo aquilo soara um tanto falso, ou pelo menos forçado sob o seu ponto de vista . Porém, o seu vislumbre momentâneo já havia desaparecido em meio à confusão de idéias em sua mente, e dali só regressaria muito mais tarde. Com um dar de ombros, endireitou-se. Pondo-se de pé, dirigiu-se ao balcão após uma última olhada no corpo de Ivan e no capitão da guarda que o fitava interessado. Deixou algumas moedas para o taverneiro que estava sob custódia da Guarda e era incapaz de recolher seu pagamento e completou pouco antes de sair porta afora assoviando. – Então nada mais há de ser feito . A não ser a justiça.

Tanto a garota quanto alguns dos guardas ainda se detiveram por alguns instantes observando a atitude curiosa de Hector Taylor, filho do Grande General de Narun, até que a razão retornou aos seus corpos ou pelo menos a perplexidade diminuíra, e então levaram Durio sob custódia. O capitão auxiliara a mulher a levantar-se, e esta pesarosa levou seus olhos por um instante até o corpo de Ivan ainda prostrado. Prorrompeu em lágrimas, buscando conforto e encontrando os braços do oficial que afagou seus cabelos.

E então sorriu.


Sombras em Deanor 002

Sonhos Negros

A jovem elfa acordou sobressaltada, despertando devido ao pesadelo que lhe afligia há quase dois anos, desde que inadvertidamente fora acometida por uma maldição. Aos prantos, sentou-se sobre a cama de palha e tecido élfico e ficou ali por longos instantes, buscando afastar as imagens ruins de sua mente. Sem êxito, ergueu-se, vestindo um leve robe de seda verde e caminhou a passos decididos até a biblioteca.

Sua família, os Aninrod, eram membros conhecidos e relativamente abastados dentro da casta dos Lai’Quessir, ou elfos silvestres, verdes ou das matas, dentre tantas outras denominações que os membros dos demais povos haviam encontrado com o passar dos tempos. Seu avô Amakir, era principalmente conhecido, mas não de forma muito querida pelos demais elfos do Bosque Verde, o último reino élfico do mundo.

Pois Amakir havia abandonado a religião sacra à Falena, a deusa élfica da vida para orar em nome de uma divindade humana, Lumnahakk, senhor da sabedoria e do conhecimento. Com sua morte, aos trezentos e noventa e seis anos, todos os seus velhos tomos foram herdados por sua neta. E Enais’tirc, para o desgosto de seus pais, havia optado seguir os passos de seu avô, tornando-se clériga da sabedoria. Contudo, Enai era jovem demais, e inexperiente demais para saber quando parar. E isto custara sua felicidade desde então.

Ao entrar no aposento toscamente iluminado, Enai assistiu as fracas luzes magicamente criadas para iluminarem os principais tomos se extinguirem. Era um efeito menor, um aspecto quase insignificante comparando-se ao todo da maldição. Estar constantemente imersa em trevas, abandonada e sozinha. Ou quase. Pois apesar de tudo de ruim que aquele seu ato lhe trouxe, um único fruto era para Enai a benção infima que a impedia de sucumbir completamente.

A sprite Kururu dormia em um pequeno cômodo confortável entre os livros, construido com a ajuda da própria Enai dias após ser libertada por ela. A biblioteca era onde Kururu passava boa parte de seu dia, ao lado da companheira elfa. As Sprites, que são uma espécie de fada altamente mágica e aparentemente o único ser vivo imune ao seu toque, eram com quem Enai podia compartilhar um pouco de carinho e atenção naqueles tempos difíceis.

Mas mesmo ela dormia àquela hora tardia, o que era completamente compreensível. Mesmo assim, Enai sabia que não recuperaria o sono nas próximas horas, e então poderia dedicar-se um pouco mais aos seus esforços de conhecer melhor os seus próprios problemas, e quem sabe, encontrar uma cura. Decidira, após meses de pesquisa infrutífera, atentar para alguns detalhes oníricos que lhe haviam passado desapercebidos. Os sonhos eram uma forma de nossas lembranças se comunicarem conosco. Sob esta ótica, os pesadelos que lhe tiravam o sono eram no mínimo um pedido desesperado de ajuda.

Enai sonhava com uma torre negra que tocava os céus, de onde uma fênix em chamas surgia. Logo após, tudo se resumia a mortes, dor e perda, até que ela própria sucumbisse ao mar de desespero que se alastrava consumindo o universo. Buscara nos tratados de seu avô indicações sobre uma torre semelhante, sobre lendas antigas da fênix e guerras antigas. Mas tudo o que conseguia era apenas criar mais dúvidas.

Até que, naquela noite, uma vontade interior lhe levara à um ponto quase sempre ignorado do salão. Dentre papiros antigos, velhos encantamentos e tomos milenares sobre a vida e a história do mundo de Meliny, ela a viu. O livro a mostrava, tal e qual em seus sonhos. Negra, rija, erguendo suas formas volumosas até os céus. Não uma obra gerada por mãos mortais, mas sim um pináculo de rocha lisa e perene. Um presente dos deuses e uma prova de toda sua força. Uma montanha em um reino distante. A Torre de Karnak, marco zero do reino de Deanor.

A felicidade voltou a corar o rosto de Enai, mas a nítida sensação de que alguém mais além de Kururu estava na biblioteca a levou a buscar com os olhos o seu observador oculto. Por um breve instante, a elfa podia jurar que ao seu lado alguém sorria, lendo o mesmo livro, curvado sobre seus ombros. Mas, virando-se, nada encontrou. Resignada, passou a pensar nos detalhes e preparativos para sua viagem até o reino de Deanor ao sul. Aquela sensação ficaria esquecida até muito tempo depois deste dia. Para Enai, aquela estranha sensação não passou de um equívoco, gerado pelo movimento das sombras.

E ela estava certa. Mas de uma forma totalmente equivocada.


Sombras em Deanor 001

O frio de morte que cobria o mundo era ainda mais intenso naquela noite. Pois o inverno implacável em breve iria recair sobre os vales do rio Narun em Deanor. Evidentemente àquela altura ninguém, nem mortal nem deus, poderia prever quanto mal e sofrimento aqueles ventos frios trariam não apenas ao reino, mas a todo o mundo de Meliny. O mal, sutil e letal que espalhava suas raízes em todas as direções, tramando.

As peças que a muito haviam sido preparadas estavam agora prontas. Cada qual em sua longa jornada através dos tempos esperava ansiosa pelo seu momento de brilhar. Quase duzentos anos foram necessários para que tudo estivesse pronto. Para que o plano transcorresse plenamente sem falhas. Bastava apenas que agora o idealizador de tudo o que viria a ocorrer durante os dias que viriam desse o primeiro passo. Um leve toque que mudaria o destino de um mundo.

Não havia espaço para sorte ou imprevistos, e a Sombra sabia disso. Foi por isso que esperou pacientemente, apesar da dor e da urgência que lhe corroíam o íntimo. Dor. O significado desta palavra havia atingido novas proporções no passar das eras. Até os deuses sucumbiam a ela, mas a Sombra de todo o mal havia se mostrado perene. Feito as escolhas certas, lutado para vencer. Sempre.

Desde que se lembrava, o que era muito, havia errado apenas uma vez. Escolhera mal seu sucessor, e fora traído. Não levara em consideração a ambição inerentes àqueles que o seguiam, e este foi o decreto final de seu longo reinado. A derrota havia lhe custado a vida, a liberdade e tudo o mais que prezara ao longo dos séculos. Mas ele aprendeu. E o momento da vingança havia chegado.

As mãos ósseas avançaram lenta mas decidida, pois conheciam seu alvo. Tocaram a fronte de uma jovem eleita. Adúltera, vingativa e desesperada. Apenas um leve empurrão seria mais do que suficiente. E a partir dela a onda teria início. E nem mesmo a Sombra poderia controlá-la mais. E isso a satisfez, como a muito nada mais satisfazia.

Pois foi para a Guerra que ela nascera. E seria na guerra que seu destino seria selado.

O Soldado

Sargan, o deus sol, começou sua jornada pelos céus de Meliny, a bordo de Phaélius, a embarcação de luz e fogo que lhe proporcionou a vitória sobre Lantaris, a mãe noite, no segundo confronto entre ambos pelos domínios celestes. Naquele ano, Deanor, a maior nação humana ao sul de Meliny, estava sofrendo com o outono mais frio de todos os tempos. O calor fraco do amanhecer fazia pequenas espirais de vapor subirem com o degelo lento da neve. A luz galgava as muralhas da cidade fortaleza de Narun, cobrindo a Montanha Branca e iluminando as passarelas e túneis que formavam o primeiro entreposto civilizado entre o continente sul e o norte após a cidade de Geneza.

O toque das trombetas anunciava a troca de turnos, quando os soldados poderiam abandonar as torres e as muralhas geladas e recolherem-se até suas casas rusticamente escavadas na pedra pelos anões quase dois séculos antes. Seriam substituídos pela guarda diurna que manteria a eterna vigilância em direção ao nordeste, onde estava o Vale Maldito de Forgia, hoje sob domínio orc. Era em Forgia que vivia o real perigo e mal que assolava o mundo. A Sombra que retornara após seu sono de séculos.

Em parte alheio a isto em seu posto, Hector Taylor marcava toscamente a sua saída em um pequeno papel de controle. Todas as ações dos soldados eram devidamente registradas pelos escribas da nação, e encontrar o culpado por desatenção ou descumprimento do dever era de certa forma simples. A justiça deveria ser aplicada igualmente a todos. E isso não era diferente para Taylor.

Mesmo sendo filho do Grande Regente e General das Tropas de Deanor, um dos homens mais importantes e poderosos de toda a Nação, o líder militar dos exércitos de Narun, ele nunca foi reconhecido como tal. Para o pai, apenas o poder em combate interessava, e era exatamente por isso que Hector se esforçava tanto para ser sempre o melhor no que fazia. Queria mostrar para o Grande General, seu pai, que ele merecia a sua confiança.

Contudo, seu atual posto não permitia de imediato grandes atos de bravura. Sendo relegado a uma torre na segunda muralha interna e voltada em direção contrária ao inimigo, Hector não faria falta mesmo se deixasse de comparecer ao trabalho. Sempre aspirou tornar-se um Guerreiro da Nação – um soldado de campo – vagando pelas estradas e levando a força da lei do reino aos fracos, mas a cada noite tediosa este sonho parecia mais distante. Mesmo assim, não pretendia manchar sua ficha de forma alguma e jamais deixava de cumprir com suas obrigações. Na sua mente, aquilo poderia ser sua ruína em caso de dúvida entre ele ou outro soldado mais qualificado para uma promoção.

Hector, apesar da pouca idade, era bastante robusto. Seus cabelos castanhos e lisos eram mantidos soltos sobre os ombros, e apenas a barba por fazer transparecia certo desleixo consigo próprio. Os olhos de um azul profundo estavam encolhidos pelo sono, e a face austera, com um queixo pontudo e firme, avermelhada pelo frio. Após a dispensa, desceu pelas escadas em caracol entalhadas em uma rocha cônica que lhe servia de torre e encaminhou-se até a praça comercial de Narun, onde as tavernas serviam uma refeição simples devorada com vontade pelos famintos soldados. Freqüentava a Taverna do Grifo, mas sem nenhum motivo em especial. Alguns inclusive diziam que nada do que Hector fazia tinha realmente algum motivo especial.

Adentrou pela porta grande de madeira escura e sentou-se na mesma cadeira que ocupava todos os dias perdendo-se em devaneios além da vista que tinha da janela. Para muitos, a cidade de Narun não era exatamente bonita com suas ruas e vielas de pedra cobertas de gelo quase que todo o ano, mas ninguém podia afirmar que dali a visão do horizonte não era impressionante. Podia-se correr com os olhos centenas de quilômetros através das florestas e rios gélidos que serpenteavam pelas reentrâncias das planícies até colidir com as montanhas ao fundo. Tão distantes e imaculadas que pareciam irreais.

Permaneceu ali apático vagueando pelos caminhos que jamais conhecera por pouco tempo. Não tardou para que Durio, o taverneiro gordo com um velho avental amarelado e manchado de café lhe trouxe-se uma caneca fumegante e as perguntas que fazia mais por hábito do que por curiosidade. Gabava-se por conhecer seus clientes mais assíduos, e esforçava-se para demonstrar isto a todos eles.

- Bom dia, seu Taylor – falou, enquanto passava um pano na mesa já limpa por puro reflexo, fungando um pouco devido à gripe que costumeiramente lhe atacava quando o clima mudava daquela forma. As gengivas avermelhadas, feridas pela pouca higiene mostravam alguns poucos dentes frouxos pendendo na boca. O hálito era pior ainda do que o estado dos trapos que vestia – Como foi o turno?

- Normal – respondeu Hector sem dar muita importância, restrintindo-se a afastar-se um pouco do falante anfitrião. – Como sempre, está tudo tranqüilo.

Um dos detalhes que chamavam a atenção para Hector e o tornava uma figurinha fácil nas pilhérias dos companheiros era a sua maneira exageradamente pausada de falar. Os de língua mais afiada afirmavam que ele era incapaz de dizer meia frase sem parar e pensar novamente no que dizer. Outros questionavam como um general brilhante como Taylor poderia ter um filho com um intelecto tão reduzido quanto o de Hector Taylor. Se tais comentários nunca chegaram aos ouvidos do soldado, ou se ele simplesmente não se importava com eles era algo desconhecido por todos.

- Poderia me deixar um pouco sozinho? – pediu enfim sem desviar o olhar da janela. Durio, que já esperava por aquilo, apenas confirmou sorrindo, os mesmos dentes frouxos a mostra e partiu em busca de um cliente mais falador para tomar-lhe o tempo.

Após sorver dois ou três goles do café a paisagem começou a lhe parecer enfadonha e Hector passou a observar os outros freqüentadores do Grifo. Geralmente eram apenas alguns soldados em fim de turno ou um e outro velho guerreiro que exagerava na bebida e não lembrava mais em que parte da cidade morava. Naquela manhã, porém, uma jovem de cabelos castanhos e um belo corpo delicadamente coberto por um vestido vermelho longo estava na mesa do fundo observando aflita a porta de entrada. Provavelmente esperando alguém.

De fato, instantes depois, um jovem soldado de corpo troncudo e porte guerreiro adentrou pelo salão. Sorrindo e falando alto, sentou-se à mesa da jovem, e com um vigoroso puxão trouxe a menina mais próxima a ele. A moça não protestou, apesar de mostrar claros sinais de descontentamento. O soldado, de nome Ivan, estava radiante, contando e recontando a rotina habitual dos turnos de guarda como se fossem façanhas dignas dos maiores heróis, de forma claramente enfadonha para todos que se prestaram a ouvir.

- Bom dia Ivan – era Durio casualmente aproximando-se da mesa, e tornando a limpa-la por reflexo, removendo algumas migalhas de pão imaginárias. Ivan o recebeu com uma cortesia exagerada, talvez desejoso de fazer graça com o taverneiro. Falou enfim:

- Nobre amigo. Já sabe o que me trazer?

- Algum outro nestas terras geladas começa o desjejum com cerveja? – respondeu o taverneiro respondendo a reverência. Dúrio enrubesceu um pouco devido a presença da menina diante da brincadeira tola que interpretavam, preferindo afastar seus olhos dela concentrando-se ainda mais na madeira enegrecida da velha mesa, e na cerveja que serviu sem mais piadas.

Ivan retomou o falatório sobre sua noite de serviço, e até mesmo Hector desistiu de prestar atenção. Ia voltar seu olhar para a própria caneca quando teve a nítida impressão de que a moça colocara algo na bebida do acompanhante. Foi apenas um segundo, um pequeno relance e a partir de então tudo saiu de seu controle. Durio se afastou da mesa, Ivan beijou a garota de vermelho no rosto de forma um tanto rude e deu um sonoro gole na cerveja. Foi então que, pela primeira vez, Hector viu a garota sorrir.

Era um sorriso diferente, bastante peculiar. Tanto que o soldado passou até mesmo a imaginar que tipo de situação o faria sorrir daquela forma. Pensou no prazer da caça, no momento em que o caçador finalmente encurrala o animal mortalmente ferido e que este apenas aguarda por sua piedade lhe dando uma morte rápida. Estranhamente, quando caçava sempre se sentia errado ao olhar nos olhos da presa. Era uma espécie de remorso. Mesmo sabendo que não tinha mais escolha, pois parte do serviço já estava feito, hesitava e até mesmo se arrependia. Sabia que o animal morreria de qualquer maneira e que não havia mais como voltar atrás, mas isso o entristecia. Então sorria aquele mesmo sorriso triste. E terminava o serviço.

Daquele momento em diante tudo o que geralmente fazia parte de uma rotineira manhã no Grifo desvaneceu-se por completo e a realidade assumiu um novo e estranho caminho. O baque surdo do corpo de Ivan caindo de encontro à madeira do assoalho e o grito da menina de vermelho trouxe Hector de volta a realidade. Alguns soldados tentaram em vão acudir o homem que espumava pela boca. Pequenas convulsões o faziam se contorcer de uma forma estranha e dolorosa, enquanto outros recém chegados procuravam acalmar a moça que agora gritava a plenos pulmões. Ambos os esforços foram inúteis.

Ivan estava morto.


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