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O Rei do Inverno

Muitos conhecem as lendas que permeiam a história de Artur, o cavaleiro bretão que; trazendo consigo Excalibur, a espada mágica provinda do Outro Mundo – expulsou os saxões da bretanha e firmou um império de paz em plena idade das trevas. Também é de conhecimento geral que toda essa história pode ter realmente ocorrido como talvez nem mesmo um guerreiro chamado Artur tenha existido algum dia.

Porém, das muitas encarnações desta história, Bernard Cornwell nos trouxe, sem dúvida de erro, a mais verídica. Em O Rei do Inverno, somos apresentados a uma Bretanha superticiosa, mergulhada em guerra civil, sofrendo com doenças e com a ignorância do povo após o declínio do Império Romano que deixou para trás apenas suas ruínas e a tecnologia bélica da parede de escudos. E por detrás destas é que Artur se ergue.

Apesar de alguns anacronismos (dos quais o autor se desculpou, caso contrário eu sequer teria notado) como a presença de Merlin e de Lancelot já nesta parte da história, ela é descrita de tal forma e com uma crueldade tão simplória que em alguns momentos você se sente em meio a turba, empurrando escudos e brandindo lanças contra o inimigo visivelmente superior em uma era de ignorância, medo e combates.

Talvez ele pareça um pouco forte para um leitor ávido por romances perfeitos e histórias bonitas, por que o que mais se encontra no transcorrer das páginas são sangue, suor e a devassidão de exércitos invadores que pilham, matam e estupram numa época em que o conceito do cristianismo ainda estava sendo difundido no coração de um povo fortemente pagão.

Um livro épico não apenas pelo seu teor mas pelo ritmo imposto pelo autor que nos leva de uma página para outra desejando conhecer um pouco mais sobre os lugares e pessoas daquela Bretanha há muito perdida. Personagens cuja força reside justamente em sua simplicidade, devoção e crença em seus deuses e na força de seus braços.

Não apenas recomendado, mas sim obrigatório.


Memórias de uma Gueixa

Outro livro que resolvi adquirir apenas levando em conta o que me recordava do filme que assisti há algum tempo, Memórias de uma Gueixa trata-se de um tipo de auto-biografia romanceada (e fictícia) de uma das últimas e mais caras gueixas “à moda antiga” do Japão, a japinha de olhos azuis Sayuri.

As gueixa, aliás, ao contrário do que normalmente se pensa, não eram prostitutas de luxo, e sim mulheres que eram treinadas ao longo da vida para entreter os homens. A idéia, pelo pouco que me consta, é bastante antiga e trata da premissa básica de que levavam vários anos para se treinar corretamente uma menina para se tornar gueixa, e quando enfim ela estivesse preparada, já teria “passado do ponto”, por assim dizer, para outros fins mais carnais.

A história contada por Arthur Golden começa com a protagonista sendo retirada da vida miserável em uma vila de pescadores e vendida como escrava para um Okya, que seria um tipo de Agência de Gueixa, organizando sua agenda, emprestando-lhe roupas, custeando o treinamento da garota e ficando com uma porcentagem de seus lucros futuros (após a própria pagar todo o investimento que a Okya realizou em sua educação).

Com o passar do tempo somos apresentados à todas as dificuldades pelas quais a garotinha passa, além de uma série de questões que ela mesma nos faz sobre o seu direito (ou não) ao amor, a intimidade e a família. De forma geral, é sobre isso que o livro fala, trazendo sempre uma quantidade muito rica de detalhes sobre os preparativos e a cultura nipônica durante os anos 30 e 40, até o dia em que todas as Okya são fechadas devido a Segunda Guerra Mundial.

É um livro muito bonito, em vários sentidos. A tradução que eu peguei estava bastante legal, mantendo inclusive o sentido do caminhão de metáforas que são comuns à maneira antiga dos japoneses falarem que são um show à parte. Recomendo muito a leitura, comecei 2010 com o pé direito pelo visto.


Operação Valquíria

Uma oportunidade única de acabar com a Segunda Grande Guerra Mundial quase um ano antes do seu derradeiro fim, salvando desta forma milhões de vidas. O preço? Talvez a sua própria e a de seus familiares. Foi de certa forma esta a escolha que alguns conspiradores do alto escalão nazista assumiram quando começaram os planos que culminariam com a morte de Hitler e a tomada de poder de toda a Alemanha.

A Operação Valquíria seria o ápice deste plano. Uma mobilização coordenada através de toda a Alemanha previamente preparada para tomar o poder caso os membros do movimento nazista ligados às SS tentassem tomar o poder no caso da morte de seu Führer. Tudo pronto e definido muitos anos antes. Para dar certo, bastaria que Hitler fizesse o favor de morrer.

Porém, uma série de pequenos erros além de certa relutância por parte dos menos corajosos em agir  levaram toda a tentativa de acabar com o líder nazista ao fracasso. Aliás, Hitler não apenas sobrevive como quase sequer sai ferido, apesar da explosão acontecer praticamente debaixo de seu nariz.

Sendo contado como uma espécie de “reportagem romanceada”, o autor Tobias Kniebe descreveu em seu livro quase todos fatos desde a preparação do primeiro atentado até algum tempo após o término da tentativa frustrada de Valquiria, na sequência que aconteceram, levando o leitor junto com o Coronel Claus von Stauffenberg através da Toca do Lobo até o Bunker de Hitler com todos aqueles explosivos na maleta. Confesso que até eu fiquei nervoso.

Apesar de um tanto quanto cansativo às vezes (até por que, apesar de romanceado, o livro não é um romance) vale a pena  ser lido não apenas devido ao peso histórico da tentativa de atentado, mas principalmente para lembrarmos que apesar do mundo estar virado de pernas pro ar, os próprios alemães não estavam sorrindo felizes e orgulhosos enquanto cozinhavam alguns judeus.


O Príncipe

principeO Fim Justifica os Meios.

Apesar desta frase não ter sido escrita por Maquiavel, ela resume e muito bem as idéias propostas em O Príncipe, um pequeno livro trabalhado como carta a um novo regente itálico e que trata da sua visão particular sobre como um líder mantém o poder sobre seu povo e os faz prosperar.

Apesar de que em alguns momentos seu foco esteja basicamente voltado à manutenção de exércitos num contexto da época em que foi escrito (no século XV)com direito ao uso ou não de fortificações , ele traz as bases de comando e poder que moldaram com o passar do tempo o Estado como hoje conhecemos, e muitas das sugestões e visões de Maquiavel continuam atuais em se tratando de política ou de relações sociais como um todo.

Vale a leitura como o clássico que é, sendo bastante fácil de ser vencido pela quantidade pequena de texto e pela grande disponibilidade de livros espalhados aqui e ali (encontrei o meu em uma banca por meros cinco reais).


Gestapo

gestapoAntes de me ater ao livro falar um pouco de seu autor. Sven Hassel descreveu a Segunda Guerra Mundial de maneira crua e realista, com uma visão única de quem realmente presenciou os acontecimentos da década de 40. Não temos aqui um romance escrito sobre uma pesquisa histórica. Hassel viveu no front, ele foi a guerra. Ele era um nazista, foi um soldado do Exército Alemão a quem serviu no período de 1937 até o fim da guerra, em 45.

Ele mostra que apesar dos horrores da guerra, os alemães que nela lutaram não eram monstros inumanos desprovidos de emoção (ou meras coisas para se atirar, como na maioria dos jogos em primeira pessoa onde os nazistas se tornaram alvos humanos clássicos). Travam-se de homens e mulheres com desejos, sonhos e vontades. E a maioria deles estava tão tristes e apavorados com a guerra quanto o resto do mundo.

Gestapo narra uma parte desta sua vida de soldado na pele de oito companheiros sobreviventes da 5ª Companhia do 27º Regimento Blindado. Os últimos oito que restaram após um ataque das tropas russas. Mas não havia glória na derrota, e os oito apenas regressaram à Alemanha – mais calejados, preparados e um pouco menos humanos – para aguardar novas ordens.

Citando um trecho no livro, numa interpretação um tanto quanto livre: “A primeira coisa que aprendemos na guerra é mijar nas próprias botas“. Não há um herói dentre os oito soldados, tampouco alguém querendo bancar o herói. Tudo o que eles fazem é seguir as ordens recebidas, e tentar sobreviver aos ditames (nem sempre muito inteligentes) de seus superiores.

A história não se preocupa muito em ser linear ou empolada. Ela é nua e crua. Sua linguagem é feroz, chula em vários pontos, mas incrivelmente familiar. Você não consegue deixar de se sentir envolvido com a velocidade do texto e se ver compartilhando com os personagens os momentos em que eles se davam ao luxo de rir, insultarem-se e blasfemar.

E o bacana é que não se trata de uma história de companhia militar “holliwodiana” onde temos o bonzão, o pateta e o personagem-alvejado-no-início-do-filme. O grupo é imprevisível. Em um momento, o capturam um bando de refugiados russos, noutro, auxiliam este mesmo bando a fugir das ordens de enforcamento de um general alemão que jamais colocara seus pés no front.

Enfim, Gestapo é uma história de contrastes, de escolhas inevitáveis de homens inseridos num sistema hostil de guerra. E no ar ressoa a pergunta que para mim é um dos norteadores da história: Até que ponto você está diposto a trair ou lutar por sua pátria mesmo indo na direção contrária aos seus princípios?

Cada um dos oito soldados respondeu a esta pergunta moldando-se à guerra da sua forma. Mesmo que isso vá contra tudo o que eles eram antes dos combates. Sapateiros, músicos, agricultores. Soldados. De navalhas e pistolas em punho, eles avançam levando dentes de ouro furtados dos cadáveres nos bolsos num novo mergulho ao inferno do combate no front.


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