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O Cânone dos Mortos 004

Deserto Willer – Cidade dos Mortos
Segundo Dia do Mês de Veninliel

- Cidade à frente! – gritou Carson Goldston do carroção que conduzia a caravana na viagem através do Deserto Willer, rumo a capital daquele reino, Bretor. Entretanto, Giuseppe com sua luneta já esquadrinhava a cidade vindoura há alguns minutos. E estava preocupado. Conferiu mais uma vez a quantas andava a bateria de HyperXeon e acelerando um pouco a carroça, emparelhou lado a lado com o velho Carson.

- Bendito seja o Vindouro – comemorou batendo de leve na própria perna – Nossas provisões estavam muito próximas do fim.
- Se fosse possível gostaria de evitar pararmos ali – disse Giussepe com os olhos fixos na luneta.
- E porque homem? Estamos com água para apenas dois dias, talvez menos. Se não pararmos dificilmente vamos sobreviver ao resto do deserto.
- Sinto muito, pois em parte isto é culpa minha. Não sabia que Durango havia sido destruída por bandoleiros.
- Bandidos, um dia ainda sofrerão as conseqüências de seus atos malucos. Imaginem que envenenaram até o poço!

Giuseppe lembrava bem da cena que encontrara no entreposto quando lá chegaram ao anoitecer. Todos os pouco mais de cinqüenta habitantes haviam sido mortos e suas peles arrancadas. Os animais estavam mortos as dezenas próximas ao poço no centro da vila. Não foi difícil imaginar como morreram.

- Mesmo assim, suas provisões diminuíram muito devido a minha inesperada união.
- Sem essa, amigo. Sem você todos nós já estaríamos mortos. Ou esqueceu que salvou a vida da minha pequena ali?

Scarlatti voltou novamente seus olhos para dentro do carroção do novo companheiro e cumprimentou sorridente a “pequena” do velho Carson, uma mulher linda na casa dos vinte anos de nome Alicia.

- Fiz o que qualquer um faria. E nem corri tantos riscos assim, afinal, vocês foram salvos por HiperXeon.
- Conversa. Ninguém faria o que fez por nós. Arriscou um equipamento como esse com desconhecidos. Não me venha com modéstia garoto, ou vou achar que minha gratidão está sendo desmerecida. E de volta aos porquês… O que há de errado com a cidade?
- Veja você mesmo – disse Giuseppe passando-lhe a luneta.
- O que é?
- Olhe pela extremidade menor – disse sorrindo Scarlatti.

O Velho Carson colocou e tirou a luneta dos olhos pelo menos cinco vezes até ter certeza de que ainda estava tão longe quanto lembrava estar do lugarejo no horizonte. Desconfiado por alguns instantes, voltou seus olhos para Giuseppe e soltou uma sonora gargalhada.

- Nada mais me surpreende vindo de você meu amigo.
- Então olhe na direção do poente, naquelas coisas que lembram varais de lençóis.

Carson correu a luneta por alguns instantes, e Giussepe podia ver as mãos de seu amigo de viagem tremendo conforme se aproximava do lugar que ele descrevera.

- Que o Vindouro seja louvado… são…
- Sim. São as peles dos habitantes de Durango. Estão secando ao sol.
- Quer dizer que os autores da chacina vivem ali. Isso é péssimo. Não temos água e não podemos seguir sem parar.

Giuseppe permaneceu calado por alguns instantes. Ainda estavam a pelo menos uma hora de viagem pela longa e descendente planície do Deserto de Las Caveras e a noite não tardava a chegar. O seu colorido mecanóide estava praticamente com a bateria completa, pois não foi ligado novamente desde o incidente no deserto.

- Algum problema pai? – perguntou Alicia aproximando-se da cocheira da carroça.
- Não, filha. Volte pra dentro do carroção por favor – ordenou Carson nervoso, mostrando com seu tom de voz que este era um assunto já encerrado. Alicia, sem outra alternativa, obedeceu resoluta.
- Se precisamos de suprimentos, precisamos. – ponderou Scarlatti, hesitante. – A noite será nossa melhor aliada. Os selvagens não esperam um contra-ataque, pois acreditam ter exterminado toda a vizinhança… entretanto seriam tolos se não deixassem alguma vigilância.
- Eles são a pior espécie de louco – murmurou Carson nervosamente – e a descoberto seremos alvos fáceis. Não pretendo ser o próximo a virar tapete daquela forma.

Quedando-se pensativo, Scarlatti apoiou o queixo no punho direito enquanto com a mão esquerda massageava seu cocuruto, visualizando os arredores. O hábil artífice mentalizou a disposição dos vários elementos da cidade para encontrar a melhor estratégia, mas daquela distância era impossível.

- Uma distração, quero crer… Xeon pode aproximar-se da cidade por um lado, atraindo a atenção enquanto um grupo de Arautos apanha pelo menos água para a viagem adiante.
- Acha que o seu mecanóide dará jeito?
- É evidente que sim. Agora temos algumas armas, escolha dentre seus homens os melhores para usá-las, e os cavalos mais rápidos para saírem velozmente se necessário. A caravana precisa contornar a cidade, bem longe, e esperar a equipe de avanço já além dela, pronta para seguir viagem. Se tudo correr bem, eles acreditarão que espantaram um invasor e nem darão pela presença dos invasores.

- E se tudo ocorrer mal?

Diante da observação de Carson, um repentido temor percorreu a espinha de Giuseppe. Oscilando em seu assento, ele quase desfaleceu, mas recuperou-se a tempo.

- Não estou me sentindo bem… – explica ele, trêmulo e um tanto envergonhado – Receio que minha resistência não esteja à altura de longas viagens pelo deserto. Vou instruir Xeon em suas atribuições, senhor Goldston, mas não poderei ser de mais valia do que isso. Preciso… descansar.

- Está ótimo meu caro. Faça isso. Iremos atravessar além daquela pequena colina ao oeste. Perderemos pelo menos três horas do dia, mas não vejo outra saída. Sem água, não chegaremos a lugar algum.

Scarlatti aprumou sua carroça para o contorno da cidade maldita, e passou a acompanhar a caravana ao longo da silenciosa e pesarosa viagem. No fim da tarde, observou os escolhidos para o grupo de assalto se reunirem e montarem um tipo de acampamento provisório além da colina enquanto aguardavam o inclemente sol se por.

- HyperXeon não atacará antes da noite ter ido bem alta… – falou o professor a Carson e mais dois companheiros “Arautos” – É preciso pegá-los com a guarda o mais baixa possível. Aguardem a confusão começar no lado da cidade oposto ao poço e entrem o mais rápido e silenciosamente que puderem!
- O silêncio será o preço não apenas de nossas vidas, mas também a de nossas famílias. – reforçou Carson olhando-os à luz do lampião que queimava com a luz devidamente protegida de olhares indesejáveis.
- Porém, não hesitem em se defender se necessário – tornou Giuseppe – o mecanóide lhes dará apoio para a fuga neste caso. Só não o deixo aqui com vocês agora porque ele precisa terminar de acumular energia.
- Que o Vindouro abençoe esse seu diabinho mecânico, meu velho. – comemorou Carson, encontrando apenas as costas de Giuseppe avançando em direção a sua própria carroça.


O Cânone dos Mortos 003

Deserto Red Tower – Oitenta quilômetros da capital de Esperanto
Vigésimo Nono Dia do Mês de Rioniel

O pequeno lagarto de tons avermelhados corria veloz sobre o Deserto de Redtower, alternando as magras patas e erguendo o corpo o máximo que podia para escapar do calor tórrido das areias. O lugar desolado que ficava em Esperanto, no coração de Gandara atingia facilmente a marca dos quarenta graus durante o dia, mas a sensação de calor era muito maior.

De pedra em pedra, afastou-se do campo aberto onde sua coloração viva poderia atrair a atenção de alguma ave de rapina e abrigou-se sob a sombra de uma rocha maior e cônica, carcomida pelos ventos que sopravam intermitentemente. Eram aquelas estranhas formações rochosas que se espalhavam por toda a região e davam nome ao lugar. Ali, ofegante, o réptil continuava com o mesmo movimento frenético de troca das patas de apoio, girando seus olhos por todas as direções.

Mas, no entanto, existem coisas em Gandara que nem sempre os olhos podem ver. Puxando a rede previamente enterrada nas areias com vigor, o homem alto e magro de aparência doentia apesar da pouca idade e com a pele queimada pelo sol comemora a captura, dançando e gingando com a trouxa em uma das mãos, pouco antes de desatar a correr em direção a mais alta das “torres vermelhas”.

- Peguei um! – gritava as gargalhadas – eu peguei!

Sentado à sombra contemplando o horizonte árido que se perdia sob o brilho intenso do sol, o outro sujeito alto de longos cabelos lisos e incomodamente brancos ignorou completamente a alegria do companheiro. Vestia um longo sobretudo negro com a marca rubra dos Inquisidores nas costas, um tridente infernal. De trás do crânio, um longo e único chifre marcado por inúmeros combates crescia até os ombros.

- Veja só! – sorriu o homem segurando o lagarto pela pata – e é bem gordinho!
- O que? – respondeu o outro – a sim Yiuri, bonito.
- Bonito? Dane-se a beleza! Só estou pensando na comida. Que carne ele deve ter!
- É um atroz, Yiuri.
- Como assim, Rel?
- O lagarto – respondeu fitando-o com um par de olhos vermelhos profundos – é um atroz dos desertos. A carne dele é venenosa pra você. Se quiser comer, use ele de isca pra alguma águia ou karkron.
- Ah… – falou Yiuri um pouco envergonhado, sentando-se também a sombra – não deve ter nenhum karkron por ai agora né?
- Com este solm provavelmente não.
- Mas eu estou com fome. Você bem poderia arrumar alguma coisa pra’ eu comer.
- De novo? Você comeu a menos de uma hora.
- Ah, qual é! Ás vezes nem parece que você é meu servo!

O demônio suspirou profundamente e então, fazendo um pequeno corte na palma da mão, caminhou até o mestre que o olhava desafiador. Agachando-se ao seu lado, Azgrael, ou o “Rel” como Yiuri vivia lhe chamando desenhou três símbolos infernais sobre as pedras a sua volta com o próprio sangue e então ficou novamente de pé.

- Ordene – disse o demônio.
- É assim que eu gosto – brincou Yiuri antes de proferir as palavras de invocação que utilizou para aprisionar o demônio alguns dias antes, em um golpe de sorte na capital de Esperanto, La Cidad. Nunca fora um invocador de talento, e até o momento ainda não acreditava ter sido capaz de aprisionar um dos Inquisidores, um guerreiro maior das castas demoníacas.

No centro do triangulo formado pelas pedras cobertas por símbolos místicos, uma bolha de carne cresceu até atingir dois palmos de largura, engrossando e criando casca até assumir a forma de um ovo. Azgrael então saiu dali e caminhou novamente até a pedra onde estava, buscando o infinito no horizonte.

- É isso ai! – comemorou Yiuri rachando a casca exterior com uma pedra e usando as lascas como colher de maneira improvisada para sorver o conteúdo do ovo. O lagarto continuava dependurado ali próximo pelos pés com a corda da rede, e até mesmo ele parecia incomodado com os sons produzidos pelo homem enquanto devorava a comida.

- O que você disse mesmo que era isso? – perguntou com a boca cheia.
- É um ovo de dragonete.
- Bom! É muito bom mesmo.
- Olha – falou o demônio apoiando a cabeça sobre as mãos e voltando-se em direção ao sujeito que continuava a comer de cócoras – até quando pretende me manter desta forma? Não sou um cozinheiro ou algo que o valha, e se pretende me usar pra conseguir comida é melhor…
- É melhor você fechar esta boca ou te … – o mago, contudo, não conseguiu completar a frase. Antes que desce por si, a longa lâmina da espada rubra e dourada do demônio roçava sua garganta, permitindo que um fino fio de sangue escorresse pelo pequeno corte.
- Me manda de volta para um dos abismos não é? Escute bem o que vou dizer pra você garoto. Eu ainda não compreendi como um sujeito sem talento e sem recursos conseguiu me aprisionar desta forma, mas eu ainda prefiro descer ao plano mais profundo do inferno e retornar derrubando um a um todos os senhores dos círculos a ter que baixar a cabeça para um sujeito fraco e fedorento como você. Estou por um fio para isso está bem, então, não me tente. Não… me … tente! Entendeu bem?

Yiuri simplesmente concordou com a cabeça, suando muito, enquanto Azgrael tornava a colocar a lâmina na bainha, caminhando em direção a sua pedra. Sentou-se lá novamente e tornou a observar sua liberdade tão distante e a pensar em silêncio. O mago com a mão sobre o corte respirava fundo tentando não perder os sentidos devido ao medo. Quando enfim se sentiu pronto, explicou:

- Nós estamos indo para Bretor. Dois amigos meus estão vindo de automóvel lá de El Cidad. Devem ter tido algum problema no caminho, deveriam ter chegado ontem. Só ficaram de conseguir um dinheiro antes de sumir de lá. Eu sai na frente porque…
- Não me interessa o porquê. O que pretendem em Bretor?

Yiuri sorriu com os poucos dentes podres que tinha na boca e falando baixo como se quisesse não ser ouvido por ninguém, apesar do único ser vivo em quilômetros fora os dois fosse o lagarto dependurado pelo pé, disse – Eu recebi uma dica quente sobre um determinado sujeito que está em Bretor. A grana é alta, muito alta, mas o sujeito é perigoso entende?
- E onde eu me encaixo nisso tudo? – perguntou o demônio indiferente.
- Por enquanto você só deve vir comigo. Acredite, até eu fiquei surpreso quando consegui invocar um Inquisidor. Eu nunca nem tinha visto um de vocês de perto! Sabe, a gente precisava de um demônio do nosso lado pra tudo ocorrer dentro dos conformes. Mas, um Inquisidor? Com você conosco eu já até considero o trabalho feito!
- Pois eu vou lhe dar um prazo garoto. Se dentro de três semanas eu não for libertado, acabo com você e vamos os dois para o abismo. E é bom lembrar que lá eu serei o mestre.
- Vai acabar antes disso, promessa! – fala Yiuri empolgado, deixando o ovo escorrer por entre os poucos dentes podres que lhe restavam na boca – e ai, está servido?

O demônio olhou por alguns instantes para Yiuri, e sem dizer mais nada fechou os olhos e adormeceu.


O Cânone dos Mortos 002

Deserto Willer – Próximo a Durango City
Trigésimo Dia do Mês de Rioniel

A estranha carroça, parecendo ser recoberta de telhas negras de vidro, levantava em seu rastro enorme nuvem de poeira mesmo deslocando-se a velocidade mediana pelo caminho para Bretor. Seu condutor, o doutor Giuseppe “Peppo” Scarlatti, pretendia chegar o quanto antes à sua próxima parada, o pequeno entreposto de Durango City, mas pretendia chegar lá com seus cavalos vivos e portanto não forçava sua marcha sob o escorchante calor do deserto.

“Hah! Essa droga de mundo inteiro é um deserto! Pelo menos as baterias estão recebendo boa carga” – pensou o doutor, esperando não ter errado na avaliação da distância até Durango. Se tudo corresse bem, ainda antes do anoitecer estaria estabulando Pallance e Wayne para o fim de mais uma etapa da jornada.

Mas não só na esperança fiava-se o cientista. A períodos, equilibrava-se em pé na boléia da carroça, perscrutando o horizonte com sua luneta em busca de perigos em seu caminho ou vindo em sua direção. Cuidado nunca era demais naqueles dias, e como se dizia em Esperanto, “o homem cauteloso usufrui sua velhice”. Assim, não foi com nenhum espanto que ele observou um bando de salteadores armados atacando uma pequena e pobre caravana. Obviamente as vítimas não possuiam muito mais além da roupa do corpo e suas virtudes… mas pelo feitio dos atacantes, mesmo isso seria-lhes espoliado.

- Selvagens! – rosnou o doutor, e voltando-se para dentro da carroça: – Xeon, meu caro… teremos trabalho para você esta tarde.

Os gritos da pequena Alícia Goldston entremeavam-se com as ordens disparadas por seu pai, Carson, aos condutores das quatro outras carroças para formarem um círculo com elas e prepararem a resistência. Não teriam muito com o que lutar, já que todo o instrumental que carregavam era composto de ferramentas, nenhuma arma propriamente dita.

O som do primeiro tiro de revólver chegou um instante depois de um dos condutores contorcer-se em um esgar de dor e surpresa e cair ao chão, imóvel. Carson obrigou a filha a esconder-se no fundo da carroça, ao abrigo dos disparos dos bandidos, e empunhou a única coisa que pode encontrar vagamente parecida com uma arma, uma pá de borda afiada pelo uso. Com um derradeiro pensamento de fé, o homem virou-se para encarar seu destino…

…para deparar-se com a bizarra cena de um tipo de mecanóide colorido e enfeitado espalhafatosamente postando-se entre o círculo de carroças e os patifes aproximando-se a galope. Pela disposição da poeira ao seu redor ele havia voado ou saltado até aquela posição, e suas mãos crispavam-se aos lados de seu corpo, como se prontas para combate.

Os bandidos, cinco homens e duas mulheres extremamente rudes montados em cavalos nem tanto, estacaram diante da insólita aparição, aparentemente sem saber exatamente como reagir a ela. O líder do bando começou uma risada baixa e ritmada, e logo todos os bandidos gargalhavam desbragadamente, apontando para o mecanóide sem a menor discrição.

-  O que é isso que vocês acharam… uma relíquia dos elfos?

- Elfos? – disse o mecanóide, numa voz distorcida, grave e abafada. – Se encontrar algum, diga “olá” a ele por mim!

Do braço direito do mecanóide subitamente estendido, um disparo brilhante atingiu o líder em pleno peito, que morreu antes mesmo de cair da montaria. Imediatamente uma saraivada de tiros foi endereçada ao mecanóide, que esquivando-se recebia apenas resvalos das mortíferas balas, o que por algum motivo o fez vibrar ruidosamente e surgir uma estranha cintilação à sua volta. Metodicamente ele atraía o fogo dos bandidos para longe da caravana, a intervalos usando sua própria arma com letal parcimônia.

Apenas três dos bandidos ainda estavam em pé quando um dos disparos atingiu o mecanóide em cheio no peito, abalando-o visivelmente. Seu disparo errou a cabeça do bandido visado, indo atingir um dos cavalos daqueles, ferindo-o mortalmente.

- Droga! – resmungou o mecanóide, saltando contra seus agressores e partindo para a luta corpo-a-corpo. – Olha o que você me fez fazer!

Os golpes do mecanóide esmagavam ossos onde os atingiam, sangue jorrava na areia em abundância, e em poucos golpes dois novos cadáveres jaziam ante ele para repasto dos rapinantes. Constatando o déficit de patifes ao seu redor, rapidamente o mecanóide perscrutou os arredores, encontrando o último bandido junto aos cavalos, apontando em sua direção um estranho rifle parecido com um canhão portátil, mas em péssimo estado.

- Tu vai morrêeeh! – grunhia o facínora, tremendo de excitação sangüinária. – Tu vai morrê e dispois ainda vô pegá esses otário tudo e…

Não se chegou a saber qual era o plano do malfeitor solitário para os caravanistas, pois uma velha e gasta pá retiniu de encontro à sua nuca, habilmente percutida por Carson Goldston que conseguira aproximar-se sem ser percebido pelo alucinado bandido. Imerso em fúria Carson prosseguiu o movimento e com ambos os braços desceu a parte afiada da pá contra o pescoço indefeso do bandido caído, garantindo que sua família nada mais tivesse a temer daquele bando, ou do que tivesse dele restado.

- Que o Vindouro, quando chegar, julgue sua alma e a minha! – disse Carson ao cadáver do último bandido. Olhando na direção do mecanóide, ainda o viu menear a cabeça e decolar na direção de uma carroça no horizonte. Minutos depois a carroça emparelhava com a caravana ainda num círculo, os homens reunindo os cavalos e os pertences dos bandidos, tentando avaliar o que pudesse ser útil.

- Eu não recomendo apossarem-se desta geringonça! – diz Scarlatti ao ver Carson e os outros interessados no “rifle-canhão”. – É tão velha e malcuidada que provavelmente explodirá no próximo disparo. Giuseppe Scarlatti é meu nome, e tecnologia meu negócio, sei do que falo.

- Carson Goldston. – diz, apresentando-se por sua vez, o líder da caravana. – O senhor é o responsável pelo mecanóide colorido?

- Sim, sr. Goldston. HyperXeon, minha criação, agora está regenerando as baterias, mas relatou-me tudo o que aconteceu. Eu fiquei acompanhando de uma distância segura, claro.

- Bem, graças ao Vindouro por seu mecanóide, doutor. Faz jus a uma parte da pilhagem, se quiser escolher uns dois dos cavalos e…

- Podem ficar com tudo, sr. Goldston. Gostaria apenas de juntar-me à sua caravana até onde for possível. Estou indo a Bretor, capital, e é sempre mais seguro viajar em grupo.

- É bem-vindo a partilhar de nossa caravana, doutor… mas é justo avisá-lo que somos “personi non grati” em quase qualquer cidade deste mundo. “Arautos do Vindouro” é como nos chamamos, e nossa fé no retorno do Último Deus, O que sobreviveu ao massacre de Mephisto graças ao sacrifício de todos os outros deuses, nos marca e segrega onde quer que vamos.

- Como cidadão de Esperanto, eu seria o último a zombar de qualquer crença, sr. Goldston. – responde o dr. Scarlatti, estendendo a mão para cumprimentar o patriarca, que retribuiu o cumprimento com vigor.

“Mesmo as mais desesperadas.” – concluiu tristemente o doutor, em pensamento.

Capítulo por Mago D’zilla


O Cânone dos Mortos 001

Gold Hotel – Avenida Red Goblin – Bretor Capital
Vigésimo Oitavo dia do Mês de Rioniel

A fumaça e o barulho dos automóveis que trafegavam pela Avenida Red Goblin era em parte contida pelas grossas janelas amareladas que iluminavam toscamente o ambiente interior do salão principal do velho Gold Hotel. Mesmo assim, a poeira se acumulava em grossas camadas em cada fresta do vidro entreaberto e o piano no centro que há muito não era usado acumulava generosas quantidades de pó.

A tapeçaria e os móveis de dias mais prósperos deixavam claro que o velho Gold carregava o peso dos anos e havia deixado para trás a pompa dos bons tempos. A madeira escura de lei perdeu seu brilho e até mesmo os alicerces e as paredes mostravam sinais de desgaste e infiltrações. O casarão do século II acabou engolido pelos novos prédios que cresciam a sua volta como garras em busca dos céus, mas seu proprietário não se importava com isso. Pelo contrário, o velho anão Deni Goldhamer sempre preferiu um público mais seleto para suas ocupações.

Praticamente nada se ouvira falar do Gold Hotel nos últimos cinqüenta anos. E era exatamente isso que os clientes que procuravam o lugar buscavam: desaparecer completamente da face de Gandara. Procurados pela justiça ou por algum grupo independente de mercenários volta e meia surgiam a suas portas, e o bom Deni como gostava de se auto-intitular sempre os aguardava com um sorriso cínico mergulhado nas longas e desgrenhadas barbas cor-de-ouro.

Sua fama no submundo era notória, e a sua memória ainda melhor. Deni era famoso por nunca esquecer um rosto, e sem dúvida ele conhecia muitos. Ninguém nunca soube bem como as informações sobre criminosos procurados chegavam até ele, ou pelo menos ninguém vivo mostrava saber. Mas o fato é que nunca foi incomum que quem quer que ali chega-se fosse recebido pelo primeiro nome, mesmo nunca tendo adentrado o velho salão do Gold.

Naquele dia, o lugar que normalmente estaria vazio àquela hora da tarde se encontrava atulhado de gente. Pelo menos cinqüenta pessoas murmuravam e conversavam organizando malas e mochilas, revendo mapas, armas e equipamentos enquanto dois goblins ao centro discutiam sobre a melhor forma de recolocar as peças de um mecanóide de carga previamente feito em pedaços como passa-tempo.

Ao fundo, o líder da caravana, Sir Willian de Kaade – um nobre ronavon a serviço do Império Anão – conversava taciturno com o taverneiro quando o bom Deni surgiu pela espaçosa porta lateral, propositalmente baixa demais para qualquer não-anão. Nas mãos, uma pequenina caixa de madeira dançava entre os dedos ágeis e nodosos do anão que exibia contente os vários dentes de ouro que compunham sua arcada.

- Ninguém contava com essa, não é caro Willian – falou o anão com voz firme apesar dos muitos anos, puxando conversa – um funcionário do alto escalão do Império em meu estabelecimento.

- Ninguém contava com muita coisa que vem acontecendo nesses novos tempos, senhor Goldhamer – respondeu Willian, involuntariamente endireitando-se para responder ao anão, como era costume ao dirigir-se a um superior – Mas são estes os tempos em que vivemos e devemos estar prontos para tais eventualidades.

- Para ser bem sincero, meu velho, eu não acredito que isso tudo que você está amontoando no meu salão seja preparo.

- Com todo o respeito, senhor Goldhamer, tenho aqui comigo cinqüenta homens bem preparados, além de armas e equipamentos de última geração que chegaram até nos diretamente de Wingun. Pensei em todas as eventualidades que por ventura…

- Eventualidades têm esse nome, pequeno tolo, exatamente porque você nunca consegue prever a totalidade dos eventos que possam vir a ocorrer – rosnou Deni, perdendo o semblante tranqüilo e bem humorado por um instante, e depois suspirando arremessando a caixinha de madeira que carregava consigo – Eventualmente você pode acertar uma ou outra contingência, mas “todas” é impossível.

- O que é isso?

- Não importa o que é – respondeu o anão – Sua jornada, senhor Willian, terá percalços imprevisíveis. Destes cinqüenta bravos que você muito honradamente está usando para tentar salvar a própria pele, dificilmente dois ou três voltarão vivos. Por isso, quando não houver outra solução e a missão estiver definitivamente arruinada, abra esta caixa. Mas, prometa para mim filho que só irá abrir quando não houver mais alternativa alguma.

- Se é o que deseja…

- Ótimo – balbuciou o anão retornando a sua sala. Sir Willian ainda permaneceu alguns instantes observando os entalhes na madeira marcada, formando uma cruzeta deitada sobre um círculo e sem compreender, guardou-a no bolso dianteiro do seu casaco surrado de viagem. Ajeitou o chapéu sobre a cabeça e após um breve lustre na condecoração de Capitão do Império na lapela do bolso, deu ordens para a partida.


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