Deserto Willer – Cidade dos Mortos
Segundo Dia do Mês de Veninliel
- Cidade à frente! – gritou Carson Goldston do carroção que conduzia a caravana na viagem através do Deserto Willer, rumo a capital daquele reino, Bretor. Entretanto, Giuseppe com sua luneta já esquadrinhava a cidade vindoura há alguns minutos. E estava preocupado. Conferiu mais uma vez a quantas andava a bateria de HyperXeon e acelerando um pouco a carroça, emparelhou lado a lado com o velho Carson.

- Bendito seja o Vindouro – comemorou batendo de leve na própria perna – Nossas provisões estavam muito próximas do fim.
- Se fosse possível gostaria de evitar pararmos ali – disse Giussepe com os olhos fixos na luneta.
- E porque homem? Estamos com água para apenas dois dias, talvez menos. Se não pararmos dificilmente vamos sobreviver ao resto do deserto.
- Sinto muito, pois em parte isto é culpa minha. Não sabia que Durango havia sido destruída por bandoleiros.
- Bandidos, um dia ainda sofrerão as conseqüências de seus atos malucos. Imaginem que envenenaram até o poço!
Giuseppe lembrava bem da cena que encontrara no entreposto quando lá chegaram ao anoitecer. Todos os pouco mais de cinqüenta habitantes haviam sido mortos e suas peles arrancadas. Os animais estavam mortos as dezenas próximas ao poço no centro da vila. Não foi difícil imaginar como morreram.
- Mesmo assim, suas provisões diminuíram muito devido a minha inesperada união.
- Sem essa, amigo. Sem você todos nós já estaríamos mortos. Ou esqueceu que salvou a vida da minha pequena ali?
Scarlatti voltou novamente seus olhos para dentro do carroção do novo companheiro e cumprimentou sorridente a “pequena” do velho Carson, uma mulher linda na casa dos vinte anos de nome Alicia.
- Fiz o que qualquer um faria. E nem corri tantos riscos assim, afinal, vocês foram salvos por HiperXeon.
- Conversa. Ninguém faria o que fez por nós. Arriscou um equipamento como esse com desconhecidos. Não me venha com modéstia garoto, ou vou achar que minha gratidão está sendo desmerecida. E de volta aos porquês… O que há de errado com a cidade?
- Veja você mesmo – disse Giuseppe passando-lhe a luneta.
- O que é?
- Olhe pela extremidade menor – disse sorrindo Scarlatti.
O Velho Carson colocou e tirou a luneta dos olhos pelo menos cinco vezes até ter certeza de que ainda estava tão longe quanto lembrava estar do lugarejo no horizonte. Desconfiado por alguns instantes, voltou seus olhos para Giuseppe e soltou uma sonora gargalhada.
- Nada mais me surpreende vindo de você meu amigo.
- Então olhe na direção do poente, naquelas coisas que lembram varais de lençóis.
Carson correu a luneta por alguns instantes, e Giussepe podia ver as mãos de seu amigo de viagem tremendo conforme se aproximava do lugar que ele descrevera.
- Que o Vindouro seja louvado… são…
- Sim. São as peles dos habitantes de Durango. Estão secando ao sol.
- Quer dizer que os autores da chacina vivem ali. Isso é péssimo. Não temos água e não podemos seguir sem parar.
Giuseppe permaneceu calado por alguns instantes. Ainda estavam a pelo menos uma hora de viagem pela longa e descendente planície do Deserto de Las Caveras e a noite não tardava a chegar. O seu colorido mecanóide estava praticamente com a bateria completa, pois não foi ligado novamente desde o incidente no deserto.
- Algum problema pai? – perguntou Alicia aproximando-se da cocheira da carroça.
- Não, filha. Volte pra dentro do carroção por favor – ordenou Carson nervoso, mostrando com seu tom de voz que este era um assunto já encerrado. Alicia, sem outra alternativa, obedeceu resoluta.
- Se precisamos de suprimentos, precisamos. – ponderou Scarlatti, hesitante. – A noite será nossa melhor aliada. Os selvagens não esperam um contra-ataque, pois acreditam ter exterminado toda a vizinhança… entretanto seriam tolos se não deixassem alguma vigilância.
- Eles são a pior espécie de louco – murmurou Carson nervosamente – e a descoberto seremos alvos fáceis. Não pretendo ser o próximo a virar tapete daquela forma.
Quedando-se pensativo, Scarlatti apoiou o queixo no punho direito enquanto com a mão esquerda massageava seu cocuruto, visualizando os arredores. O hábil artífice mentalizou a disposição dos vários elementos da cidade para encontrar a melhor estratégia, mas daquela distância era impossível.
- Uma distração, quero crer… Xeon pode aproximar-se da cidade por um lado, atraindo a atenção enquanto um grupo de Arautos apanha pelo menos água para a viagem adiante.
- Acha que o seu mecanóide dará jeito?
- É evidente que sim. Agora temos algumas armas, escolha dentre seus homens os melhores para usá-las, e os cavalos mais rápidos para saírem velozmente se necessário. A caravana precisa contornar a cidade, bem longe, e esperar a equipe de avanço já além dela, pronta para seguir viagem. Se tudo correr bem, eles acreditarão que espantaram um invasor e nem darão pela presença dos invasores.
- E se tudo ocorrer mal?
Diante da observação de Carson, um repentido temor percorreu a espinha de Giuseppe. Oscilando em seu assento, ele quase desfaleceu, mas recuperou-se a tempo.
- Não estou me sentindo bem… – explica ele, trêmulo e um tanto envergonhado – Receio que minha resistência não esteja à altura de longas viagens pelo deserto. Vou instruir Xeon em suas atribuições, senhor Goldston, mas não poderei ser de mais valia do que isso. Preciso… descansar.
- Está ótimo meu caro. Faça isso. Iremos atravessar além daquela pequena colina ao oeste. Perderemos pelo menos três horas do dia, mas não vejo outra saída. Sem água, não chegaremos a lugar algum.
Scarlatti aprumou sua carroça para o contorno da cidade maldita, e passou a acompanhar a caravana ao longo da silenciosa e pesarosa viagem. No fim da tarde, observou os escolhidos para o grupo de assalto se reunirem e montarem um tipo de acampamento provisório além da colina enquanto aguardavam o inclemente sol se por.
- HyperXeon não atacará antes da noite ter ido bem alta… – falou o professor a Carson e mais dois companheiros “Arautos” – É preciso pegá-los com a guarda o mais baixa possível. Aguardem a confusão começar no lado da cidade oposto ao poço e entrem o mais rápido e silenciosamente que puderem!
- O silêncio será o preço não apenas de nossas vidas, mas também a de nossas famílias. – reforçou Carson olhando-os à luz do lampião que queimava com a luz devidamente protegida de olhares indesejáveis.
- Porém, não hesitem em se defender se necessário – tornou Giuseppe – o mecanóide lhes dará apoio para a fuga neste caso. Só não o deixo aqui com vocês agora porque ele precisa terminar de acumular energia.
- Que o Vindouro abençoe esse seu diabinho mecânico, meu velho. – comemorou Carson, encontrando apenas as costas de Giuseppe avançando em direção a sua própria carroça.






