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Os Sete

Dificilmente escolho o momento em que vou ser apresentado ao trabalho de um autor. Em geral, só descubro se o estilo do escritor combina com minhas preferências de leitura quando um livro cai por acidente nas minhas mãos. Não foi o caso de André Vianco com Os Sete. Aqui, intencionalmente, escolhi o livro que me foi indicado como o melhor dentre os vários que este brasileiro já escreveu para ver se valia a pena adquirir todos os demais. Felizmente comprei apenas um…

Não que a história de Os Sete seja ruim. Ao contrário, a trama como um todo é até interessante. Um grupo de jovens amigos e mergulhadores amadores encontram uma caravela portuguesa naufragada no litoral gaúcho e resolvem fazer algum dinheiro com ela. Vendem a localização para uma universidade e participam do resgate de um caixão de prata ermeticamente lacrado que contém os corpos ressecados de sete múmias. Porém, um acidente faz com que uma gota de sangue entre em contato com os corpos. E então as coisas esquentam. Ou melhor, esfriam. Os vampiros despertam.

No livro encontramos a lenda do vampiro em sua forma mais punk, com uma tremenda dose de sangue, mortes e desespero. Não espere brilho e uma pacata vida em família aqui. A adaptação dos primeiros despertos e o choque de cultura devido aos quinhentos anos que separam o momento em que os vampiros foram aprisionados e seu despertar são de longe o ponto alto do livro.

Entretanto, a narrativa desanda em vários momentos. Alguns bons personagens perdem-se no caminho (em especial os próprios vampiros que, devido ao seu número exagerado, são ofuscados pelas ações de Inverno, um dos sanguessugas). O autor também possui alguns cacoetes que me irritam. O uso exagerado de nomes de marcas ou pessoas reais em suas descrições além de certos acontecimentos narrados com onomatopéias. Não consigo gostar de um texto que tenha parágrafos do tipo:

- BAOOUUMM!!!

Algumas citações soltas ficaram pelo caminho (e talvez seja explicado na continuação do tomo, chamado Sétimo). Não é dito, por exemplo, como alguns mortais eram capazes de fazer o coração de um Vampiro voltar a bater. O exército brasileiro é tratado como idiota e despreparado dependendo quase que o tempo inteiro do grupo de amigos mergulhadores para se livrar de altas confusões. E a solução final me soou infantil e pouco imaginativa.

Leiam se tiverem a oportunidade, mas não esperem um grande livro. Vale ser prestigiado, ao menos, por ser um trabalho diferente e num estilo que raramente aparece nas prateleiras dos livros nacionais.


1808

1808Quando se está com o primeiro sucesso e salvo engano único livro escrito por Laurentino Gomes em mãos, percebe-se inicialmente três pontos fundamentais: o primeiro é de que não se trata de um texto excessivamente complexo, o que é ótimo se considerarmos o quanto estamos defasados em relação a livros que tratam de nossa própria história voltados para o grande público. O segundo é de que o autor não é um historiador, e sim um jornalista e por último; a quantidade de texto é infinitamente inferior à quantidade de páginas.

Com uma tipografia “padrão”, o texto provavelmente ocuparia apenas dois quartos das 408 páginas que compõe o livro, contando aqui algumas das várias ilustrações em seu miolo. Outro ponto, especialmente notado logo no início, é que o texto às vezes torna-se repetitivo. Aparenta que por vontade de ajudar o leitor a relembrar trechos já citados, Laurentino acaba se atrapalhando um pouco. De qualquer maneira, isto não tira o mérito do feito de ter conseguido (ainda que com certo oportunismo em relação à data histórica de duzentos anos da migração da Familia Real Portuguesa até nosso país) não apenas emplacar a obra como também torná-la um quase best-seller.

Guiando o leitor desde a fuga apressada da família real frente à invasão dos exércitos de Napoleão até o regresso do já então Rei João VI, passando por toda a saga da chegada em Salvador e posterior mudança para o Rio de Janeiro, a abertura dos portos ao comércio e a efetiva criação da nação brasileira; 1808 retrata não apenas as mudanças bruscas que afetaram a população que assistiu a colônia transformar-se em país, mas também todo o contraste, a injustiça e a corrupção que igualmente ganharam força no Brasil da época.

Destaque para as informações referentes a família real, em especial ao próprio Don João VI, que era sem sombra de dúvidas um homem no mínimo singular e a sua esposa, Carlota Joaquina (que em minha opinião foi um pouco esquecida no todo da obra. Muitas das citações quanto à ela resumem-se a poucos parágrafos por mais curiosas que fossem, como suas tentativas de tomar o poder do marido). Algo que poderia ter sido incluso sem grandes dificuldades, já que, como citado, sobraram páginas no livro.

Aliás, por falar em páginas, muitas delas ao fim da obra são preenchidas pela impressionante bibliografia do tomo, nada menos que dezenas de livros que serviram como base de pesquisa para o autor (que recorreu ainda a internet para criar uma teoria interessante nos últimos capítulos). No geral, é um bom livro, de leitura leve e sem aquela cara de livro didático que traumatiza tanto a maior parte dos leitores. Recomendo para pessoas que assim como eu estão um pouco enjoadas dos romances e querem ler alguma coisa mais concreta, para variar.

E agora é esperar pelo prometido 1822 =)


O Xangô de Baker Street

xangoSe não fosse pelo inicio um tanto enfadonho e o uso exagerado do idioma francês (que, particularmente, não domino) este seria um livro quatro estrelas sem dúvida. O Xangô de Baker Street é um retrato claro do próprio Jô Soares, com seu jeitão petulante de velho chato e exigente que ganha a vida com humor inteligente. Pena que as vezes inteligente demais.

A história é a primeira vista uma colcha de retalhos. O roubo de um violino Stradivarius que pertencia a uma das amantes de Don Pedro, aliado a chegada de uma diva francesa para uma série de apresentações no Brasil, coincide com uma estranha série de assassinatos. E quem acaba sendo chamado aos trópicos para resolver o mistério? É elementar, meus caros. Sherlock Holmes e seu inseparável Watson.

Holmes, exemplo típico de moço inglês da época, logo se vê as voltas com toda a tropicalidade de um Rio de Janeiro do século XIX. Mulatas, sujeira nas ruas, homens e mulheres excessivamente vestidos para a tórrida temperatura dos trópicos, de acordo com as tendências européias imitadas aqui por nosso Império Tupiniquim.

Além de virgem aos 30 anos, Holmes não acerta uma! Faz deduções inteligentíssimas como de costume, mas afasta-se antes de ouvir que estava terrivelmente enganado todas as vezes. Além disso, é um glutão de primeira (não consegue capturar o assassino no flagra por uma disfunção estomacal que o leva correndo ao banheiro após quatro pratadas de uma boa feijoada, entre outros quitutes)

Quanto aos assassinatos, de acordo com a história, o primeiro serial killer do Mundo seria Carioca, que após matar mulheres (apenas mulheres), corta as suas orelhas e coloca delicadamente enrolado em seus pelos pubianos uma corda do Stradivarius desaparecido. Toda a sociedade Carioca aguarda por uma solução do crime, inclusive a boemia que volta e meia se intromete nos assuntos da polícia e do detetive.

Será que Holmes irá descobrir a identidade deste famigerado assassino? Qual é o motivo que o leva a arrancar as orelhas das mulheres? E porque diabos ele coloca as malditas cordas logo ali?

Leiam pra saber =D


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