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Publicação – Crônicas da Tormenta

Então, este é o segundo livro do qual participo, desta vez com um conto no Crônicas da Tormenta. Organizado por J.M Trevisanele reúne histórias que se passam no mundo de Arton escritas por vários autores distintos, e como não poderia deixar de ser, pessoas cuja distinção está acima de qualquer suspeita! Só tem fera na verdade.

São 14 histórias ao todo. Sou leitor assíduo da maioria dos autores, então imagina o quão feliz fiquei por fazer parte desse apanhado. O livro conta com textos de Leonel CaldelaRemo DisconziClaudio VillaAna Cristina RodriguesDouglas MCTRogerio SaladinoLeandro RadrakRaphael DracconAntonio Augusto ShaftielMarcelo Cassaro e J.M. Trevisan, além de mim. A apresentação foi feita pelo Gustavo Brauner e o prefácio por Eduardo Spohr. A capa é um show a parte de Greg Tocchini. Artista que graças a uma forcinha do editor colocou meu personagem no desenho, o pirata Julian Jean-Luc todo faceiro tocando violino.

Meu conto chama-se Ária Noturna, e narra a viagem do protagonista através de mares bravios até Ilha Pequena onde uma série de desventuras o aguardam. O livro já está em pré-venda, e pode ser comprado com frete grátis aqui.


O Enigma das Arcas Ato IV

Rumo a Cidade Flutuante

Um casco de navio emborcado e a deriva era tudo o que um observador desavisado poderia acreditar estar vendo diante da passagem do Serpente. E esta era exatamente a intenção de Garlor ao construí-lo. Coberto de lodo e liquens, a madeira escura semi-apodrecida da quilha avançava parcialmente afundada nas águas profundas do Rio dos Deuses. Mas em seu interior, o clérigo manobrava protegido e seco, observando sua rota através de um espelho d’água magicamente preparado.

- Foi um bom trabalho, este que você fez aqui, Enemaeon.

- Fala do espelho? Uma contribuição pequena se comparado com o todo deste navio. Ele é digno de pertencer a um clérigo da trapaça.

- Investi dez longos anos nele – falou Garlor visivelmente orgulhoso – Dezoito toneladas de madeira e ferro, movendo-se levemente através das profundezas graças aos elementais do ar que aprisionamos naquele artefato em Tyrondir.

- Ainda não acredito que aqueles clérigos entregaram aquilo de boa vontade para você.

- Bem, eu os enganei – disse Garlor entre uma gargalhada e outra – Um pouco de pirotecnia de sua parte e os clérigos acharam que eu era um enviado dos deuses. Dariam-me suas filhas por uma noite se eu pedisse.

- Se bem me lembro, você dormiu com elas mesmo sem pedir coisa alguma.

- Detalhes – respondeu o trapaceiro com uma piscadela – Sim, é um bom navio. Pena que só eu e você gostamos tanto dele. Os navios mercantes o odeiam.

- Surgindo do nada, afundando o oponente e recuperando os tesouros do navio submerso. Fica bastante claro para mim o motivo deste desafeto por parte dos mercadores. E para as autoridades, tudo isso não passa de entulho.

- Ou uma fera marinha. Os boatos estão começando a ficar mais criativos. Existe até uma recompensa para quem abater o monstro. Dez mil tibares.

- Oitenta mil tibares, na verdade Garlor – falou Enemaeon batendo-lhe nos ombros com o seu cajado de estimação, que carregava consigo o tempo inteiro. Podia parecer tolo a princípio, mas sem ele, Enemaeon simplesmente não conseguia fazer magia alguma. Era uma espécie de fetiche mágico, um ponto de concentração para que seu focus não ficasse disperso. Truque este sugerido por um de seus professores na Academia, anos antes, e que sempre apresentou bons resultados.

- Oitenta? Não chegava a tanto a última vez que ouvi.

- É claro que chegava, e você estava ciente deste valor. Tem tanto medo assim que eu lhe traia por causa de um valor tão ridículo sobre a sua cabeça? Há pelo menos três vezes esse valor nos porões. Sem contar os tesouros.

- Você já fez coisa pior no passado, Enemaeon. – foi a resposta de Garlor, e aquilo encerrou o assunto pelo menos por algum tempo.

(…)

O vulto branco e carmesim que era Liandra corria através das planícies repletas de bosques e pequenas florestas de Tollon. Alguns lenhadores que a avistaram correndo em lágrimas através da mata espalharam os boatos sobre uma Noiva Maldita, salpicada de sangue que trazia a morte. Estranhamente, pelos lugares que Liandra passava, realmente a morte se tornava mais palpável, apesar de manifestar-se apenas indiretamente. Um lenhador era atingido por uma árvore que caía, um doente finalmente sucumbia, uma complicação no parto trazia ao mundo uma criança morta.

Ela mesma não compreendia os motivos daquelas mortes, mas sabia que era a responsável. Também não sabia o que a levava a correr como se tudo o que devesse fazer fosse apenas isso. Avançar sem rumo, levando a morte e a dor ao mundo. Matando através dos bosques. Matando quem amava. Sangrando por dentro, mas sorrindo por fora.

Foi então que ouviu a música. Distante, muito além das árvores. O som a envolvia e a penetrava, através da pele e de seu sexo. Devorada, envolvida, Liandra correu ainda mais. A pele frágil ignorando os cortes e os espinhos, o vestido erguido até as coxas se esfacelava nos galhos e arbustos do caminho.

Conforme se aproximava, além da música, uma voz macia e melancólica passou a toca-la. Não a reconheceu, mas apaixonou-se por ela. Da mesma forma intensa que amara seu marido morto há poucas semanas. Sentiu-se suja por isso, e decidiu que deveria matar quem quer que fosse até se sentir limpa daquilo tudo. Até estar enfim em paz.

Sobre a colina, seu alvo coberto de negro, com longos cabelos embranquecidos agitados pela brisa da tarde, aguardava. Em suas mãos, um alaúde igualmente negro era dedilhado com perfeição. Sua platéia silenciosa arfava a cada nova nota, a cada sílaba por ele cantada. Liandra viu dezenas de outras como ela, vestidas de branco, salpicadas de sangue. A ira incontrolável desapareceu de seu âmago ao ouvir as palavras que o bardo declamava.

“Seco de inspiração, mas não de sentimento pelas tristezas que o convém tanto para assunto de poemas, o medíocre poeta o seu estilete molha, preparando-se…”. Músicas de morte, poemas fúnebres de um futuro próximo. O bardo sorriu com sua boca sem fundo, e os olhos negros como a noite, davam boas vindas ao seu séqüito profano. O som de sua própria gargalhada uniu-se ao coro de lamentações das noivas, e ao som tranqüilizador do alaúde.

(…)

- Uma coisa que não ficou exatamente clara para mim em Ralcazar foi a fama que lhe persegue agora – comentou Enemaeon trazendo novamente a conversa com Garlor à tona. Haviam percorrido quase trinta quilômetros através da foz do Rio dos Deuses, aproximando-se do segundo Priorado pertencente à Ciela, a cidade flutuante de Paltar. O clérigo olhou Enemaeon de soslaio, e com um suspiro respondeu.

- Matei muita gente nos últimos anos, velho amigo. Muito mais que o necessário.

- Por minha culpa, suponho. – falou o mago num murmúrio. A resposta de Garlor veio ainda mais baixa, engolida pelo som das ondas contra o casco do navio.

- Sim.

- Naquela noite, em Deheon, eu não pretendia…

- Não, eu sei que não – interrompeu Garlor – E é por isso que não o culpo. Sabíamos que haveria luta. Todos concordamos. Mas não consigo mais dar valor a vida. Desde que Sandra morreu… entende? Se ela teve que morrer, porque poupar qualquer um?

As memórias voltaram a mente de Enemaeon. Lembrou-se de detalhes a muito enterrados sobre aquela noite na taverna. Havia recém abandonado a Academia Arcana, expulso por mau comportamento e por trabalhos não autorizado no laboratório. Envolveu-se com o grupo de bandoleiros do qual Garlor Presas de Prata e Sandra Halden faziam parte. Juntos, saquearam e mataram por um longo tempo, até serem emboscados pela milícia imperial.

Quase todos os bandoleiros foram mortos ou aprisionados, sendo que do grupo com quase doze homens, apenas três conseguiram escapar. Feridos e sem nada além das vestes do corpo vagaram a esmo através das florestas, comendo capim e bebendo de poças criadas pela chuva até alcançarem uma taverna a beira de estrada. O plano parecia simples. Invadir, render os donos do lugar, roubar apenas o que precisavam e partir.

Inicialmente tudo havia dado certo, mas em certo momento, um dos homens presentes resolveu reagir, avançando contra Enemaeon. O mago não era capaz de fazer frente contra um oponente direto em combate físico, e Sandra partiu ao seu auxílio, dando as costas a um bêbado. Uma garrafa quebrada, um bêbado assustado e um golpe de sorte. Esta foi a combinação que pôs fim à vida de Sandra Halden.

Naquela mesma noite, após saquear a taverna, haviam amarrado todos os que lá estavam e incendiado o lugar. Ficaram ali, assistindo com lágrimas escorrendo fartas pelos rostos sofridos, até o último grito de agonia dos queimados fosse engolido pelo crepitar das chamas. Não que aquilo fosse trazer sua companheira de volta. Tampouco apaziguar a culpa que sentiam.

- Não espero mais pelo golpe pelas costas, Enemaeon – disse Garlor por fim – Os mato antes. Dormindo às vezes, para evitar qualquer imprevisto.

O mago sentia-se tão responsável por aquilo tudo que não teve forças para falar mais nada. Nem sobre a missão que colocaria em prática nos próximos dias, tampouco pelo objetivo egoísta que o motivava. Viu de relance, através do espelho d´água, que os telhados vagabundos e sujos de Paltar já eram visíveis, e se preparou para encontrar-se com o terceiro membro de seu grupo de busca.


O Enigma das Arcas – Ato III

Até que a Morte nos Separe

Liandra fitou-se mais uma vez no reflexo proporcionado pela luz da vela de encontro à única janela de vidro da casa em que se encontrava. Alisava com as mãos pequenas e brancas cada dobra do longo vestido, até que tudo estivesse aparentemente impecável. Cantarolava baixinho, apenas o suficiente para se fazer ouvir, mas sua atenção estava voltada para o quarto abaixo, na cozinha.

Havia preparado uma quantidade razoável de cozido de lebre, toicinho e peixe. Também, como de costume, preparara um chá forte de erva de cheiro e fervido a água do banho. Tudo estava pronto. Pela janela, pode ver que com as estrelas seu marido regressava. Trazia nas costas o machado com o qual trabalhava, como lenhador nas florestas de Tollon. Encabulada, tirou rapidamente o vestido e o escondeu no armário velho do quarto. Desceu as escadas a tempo de vê-lo entrar em casa.

- De novo com aquele vestido velho? – brincou Dario abrindo os braços.

- Ele me traz ótimas lembranças de nosso casamento – respondeu sorrindo. Liandra correu ao seu encontro e com um pequeno salto, abraçou-o e lhe beijou a face. Com uma cara de desagrado, Dario ergueu levemente o queixo. Liandra sorrindo beijou apaixonadamente o marido, em uma troca de carícias que perdurou ainda por alguns minutos. Enfim, ainda abraçados, conversaram sobre as amenidades do dia.

Esta rotina diária era uma constante nos últimos seis meses, após o casamento de Liandra e Dario. Ele, um lenhador por vocação. Um machado fora o primeiro presente que recebera dos pais, já aos oito anos. Ela, artesã, esculpia em madeira e era apaixonada por ela. Via formas e movimentos em raízes e velhos troncos, e tirava deles a inspiração para suas obras.

A casa de Liandra tornara-se relativamente conhecida em Follen devido às esculturas que preenchiam o pequeno jardim. Na verdade, ela própria ganhava muito mais dinheiro vendendo suas peças aos nobres do que o marido como lenhador. Porém, ele tinha muito orgulho de seu trabalho, e também o paradigma de que o homem deve sustentar a casa. Por isso, ela jamais exigiu que ele abandonasse seu trabalho, e ele tampouco fez qualquer menção a isso.

Sentaram-se despreocupados à mesa e comeram o jantar preparado por ela. No decorrer da refeição, trocaram olhares cúmplices que denunciavam o amor que sentiam um pelo outro, e após um banho quente na tina d’água, subiram em direção ao quarto. Amaram-se com o fervor dos apaixonados, e exaustos, cochilaram nos braços um do outro. Sobre a cômoda, o embrulho adquirido por Dario naquela manhã aguardava o despertar do casal.

Liandra provavelmente nunca mais esqueceria daquele presente.

(…)

Correndo o mais rápido que podia através das raízes e do lodo que formava o mangue no lado norte de Ciela, um homem sujo e coberto de terra fugia por sua vida. Em seu encalço, quatro dos homens da milícia da Cidade Tripla avançavam com a determinação de formigas. Traziam ainda um cão que saltitava através das poças e atoleiros com muito mais facilidade do que os soldados e suas armaduras.

Com uma certa dianteira, Garlor Presas de Prata dava-se o luxo de escolher sua rota de fuga. Havia marcado aquele caminho mentalmente, nas dezenas de vezes que precisou dele para escapar. O pântano formado pela curva do Rio dos Deuses em meio ao mangue ocultava suas pegadas, e o fedor pútrido que brotava da decomposição natural dos resíduos que ali vinham encontrar descanso faziam o mesmo com o seu cheiro.

O Pântano era um desafio e tanto para os maiores rastreadores, e uma benção para bandidos procurados como Garlor. Quase tudo o que entrava ali sumia, como por mágica.Além disso, as dificuldades do terreno logo acabavam com a vontade dos captores, que abandonavam as buscas e regressavam sujos e exaustos. Chapinhou por mais alguns metros até alcançar uma árvore de galhos grossos e retorcidos, caída em meio ao pântano. Sob ela, emborcado e afundado na lama em quase toda a sua extensão, um pequeno navio pesqueiro escorava o peso do tronco, impedindo que ambos afundassem completamente.

Garlor procurou em torno com os olhos afiados, e sorrindo, desviou-se de uma galhada coberta de espinhos e meteu seu corpo magro em uma fresta fina na embarcação. Ocultando-a em seguida, respirou enfim aliviado. Estava novamente em segurança. Tateou no escuro até o lampião, e com mãos hábeis, não tardou a iluminar todo o lugar com uma luz pálida, mas reconfortante.

O interior do casco estava seco e limpo. O resultado dos últimos saques havia sido empilhado perfeitamente em pequenos fardos, prontos para serem transportados ao menor sinal de adversidade. Uma rede, uma bacia com água e um arpão na parede ao fundo completavam todo o mobiliário do lugar. Garlor depositou o novo saque sobre a pilha, jogou a roupa imunda na bacia que logo ficou cheia de lama e deitou-se nu sobre a rede, balançando suave, buscando descansar o corpo.

No mesmo instante, sentiu o gélido toque de uma lâmina em sua garganta, apesar de não poder vê-la. Alguns trapos caíram sobre seu corpo, e estranhamente, um gato preto saltou através da abertura no teto, sobre a pilha dos saques e permaneceu ali, lambendo o próprio pelo. Garlor fez menção de se mover, mas a lâmina deslizou lentamente sobre a carne, e ele sentiu o fino fio de sangue correr por seu pescoço.

- Sabe muito bem que não vai sair dessa vivo, seja lá quem for… – ameaçou com a fúria estampada no rosto. Uma risada contida escapou do atacante, e em breve a gargalhada poderosa de Enemaeon preencheu toda a sala principal do navio. O punhal regressou a bainha, e o mago, desfazendo a magia de invisibilidade que o ocultava, chutou a pilha de tesouros assustando o gato e o assassino.

- Tem trabalhado bastante, pelo visto.

- Seu grande bastardo! – praguejou Garlor levando as mãos ao corte na garganta – Que tipo de piada foi essa? E como foi que chegou aqui?

- Um amigo seu taverneiro foi bastante solícito em me informar onde você escondia essa casca de noz. Sua vida custou apenas dez tibares, sabia?

- Conversa – praguejou Garlor – Ninguém sabia deste lugar. Apenas alguém que já conhecia o truque poderia me encontrar aqui. Gastou seu dinheiro apenas para saber que eu estava na droga deste mangue.

- Pois dentro em breve você vai poder trocar a umidade e o fedor dos mangues de Tollon por um clima mais condizente a sua posição.

- Esqueça. Prometi a mim mesmo nunca mais me envolver com você e seus negócios. E não pretendo voltar atrás em minha palavra.

- Para um clérigo de Hyninn, você está bastante adverso à possibilidade de roubar alguém.

- Hyninn? – respondeu o clérigo sorrindo – Nunca ouvi falar. É algum novo tipo de dança?

- Esta piada perde a graça depois das primeiras oitenta vezes que se ouve. – respondeu Enemaeon arremessando-lhe um pequeno saco de tecido escuro. No interior, Garlor encontrou um fragmento de ouro, aparentemente de um antigo medalhão.

- Isso é…

- A chave de Templo antigo, perdido no Deserto da Perdição.

- Já deve ter sido saqueado a esta altura. Geralmente os tesouros em templos abandonados já sumiram quando enfim temos conhecimento da existência deles.

- Não este. Ele tem um motivo especial para continuar oculto. Os próprios deuses o quiseram assim.

- Não contrario deuses maiores a pelo menos três anos – falou Garlor suspirando.

- Nunca é tarde para recomeçar – respondeu Enemaeon – Quando podemos partir?

- A maré sobe dentro de três horas. Se me der licença para me vestir e soltar o barco, estaremos a caminho antes de Tenebra dar lugar ao novo dia.

(…)

As mãos de Liandra novamente tocavam seu vestido de noiva, mas agora, ele estava sujo, manchado de sangue. Em seu pescoço, o presente que recebera de Dario reluzia ante a luz das velas. Um pequeno fragmento de ouro, parte de um medalhão maior. Sobre a cama, o marido jazia inerte, com o machado enterrado no crânio.


O Terceiro Deus

O livro que encerra a já denominada “Trilogia Tormenta” por ter mudado completamente não apenas a geografia e muito do que se sabia sobre Arton, mas principalmente por mudar a maneira das pessoas encararem o cenário de Tormenta. Leonel Caldela fecha a história iniciada há muito tempo atrás em O Inimigo do Mundo com o épico O Terceiro Deus.

A história gira em torno do resgate do filho do protagonista que nos foi apresentado no volume anterior (O Crânio e o Corvo), sir Orion Drake. O rebento está nas mãos do maior assassino de aluguel da história deste mundo, conhecido pela alcunha de Crânio Negro, que está as voltas com os Lordes da Tormenta, demônios de uma dimensão paralela que desejam obliterar o universo artoniano.

Cada vez mais a Tormenta deixa marcas através do continente, e Orion resolve que deve enfim enfrentar definitivamente o inimigo em seu próprio território. Após uma campanha de alistamento de deuses através do mundo, o exército divino marcha em direção a Tamura, o primeiro reino engolido pela Tormenta há mais de dez anos. E é lá que o Terceiro Deus que dá nome ao livro desperta enfim.

Uma coisa que eu fiquei particularmente em dúvida é o quanto alguns destes fatos possam impactar um leitor casual que não conheça Arton há quase dez anos como eu conheço. Será que encontrar-se com Arsenal ou com Vectorius é igualmente interessante para alguém que não sabe nem de longe o que é RPG? É uma dúvida que me acompanhou ao longo de todos os livros da Trilogia.

Aliás, no fim das contas, o próprio Terceiro muito pouco faz diretamente para a trama, apesar de constantemente fulgurar nos bastidores. Não achei o livro tão bacana como seu antecessor, mas sem dúvida é um ótimo livro com personagens marcantes e histórias cativantes inseridas no transcorrer das seissentas e tantas páginas. Fechamento perfeito para uma das mais bacanas ( e se não a maior de todas) trilogias épicas já contadas em língua portuguesa.

Parabéns ao Leonel Caldela pelo feito.


O Inimigo do Mundo

inimigoEste livro é um marco por vários motivos. Em O Inimigo do Mundo, o estreante Leonel Caldela eliminou em parte a visão “mangateísta” de Tormenta que o autor Marcelo Cassaro conseguiu de forma tão eficiente enraizar na mente dos pobres mortais que o acompanharam, fazendo com que qualquer coisa por lá seja invariavelmente vista como cômica.

Bem, o Inimigo em geral não é engraçado. Nove heróis (as vezes mais, as vezes menos) viajam o mundo de Arton caçando um criminoso que possui a singela alcunha de Albino (pelo motivo singelo de ser um gigante de pele branca, olhos vermelhos e cabelos brancos). O fato do vilão ser muito semelhante ao de um certo best seller foi mera coincidência mesmo ;)

Nessa viagem, acabamos conhecendo os dramas e alegrias (muito mais dramas, na verdade) que permeiam a vida dos personagens. Um ponto importante: várias vezes durante a história você fica furioso ou sorri diante de algumas situações pelos quais eles passam, especialmente, é dificil não ficar furioso e com pena de Rufus Domat.

Outro ponto que foi muito bem trabalhado é a visão dos deuses diante do que seria a Tormenta futuramente, suas intrincadas tramas e tramóias, apesar de que, em certos momentos, alguns dos deuses são apenas burros (Khalmyr mais do que todos), ou agem de forma digna de serem humilhados pelo protagonista, Vallen Allond.

Resumindo: Adorei a história, a forma como foi contada, e alguns detalhes épicos da vida cotidiana como heróis andando de mãos dadas, ou amando. Isso é raro de se encontrar com qualidade em uma aventura medieval fantástica. Cenas simples como a de Ellisa sentando na cama de Irryna e ajeitando os cabelos atrás da orelha mostram a visão descritiva e detalhista do autor, que apreciei bastante.

No princípio alguns detalhes com a forma que o autor escreve me incomodaram um pouco (como explicar ou adicionar detalhes entre parenteses no meio do texto), alguns detalhes meio “Comichão e Cossadinha” com tripas voando, crânios com coisas moles escorrendo e essas coisas, ou ainda a repetição desnecessária de palavras para dar um tom “poético” que não era lá muito importante no momento.

Mas enfim, saldo super-positivo.

Vale a pena ler, e quem sabe até sentir uma pontada de saudade do cenário. Espero que outros como esse venham. Antes que Arton se acabe!


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