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A Guerra dos Tronos

Quando a versão de A Guerra dos Tronos de G.R.R. Martin chegou ao Brasil pela editora Leya,  muita gente reclamou tanto da qualidade da tradução do livro que confesso que tive medo de investir quase quarenta reais nele. Havia inclusive neste mesmo dia a opção de adquirir um pacote com os até então dois volumes lançados, mas evitei tamanha aventura monetária por ter ficado com um pé atrás em relação ao texto.

Hoje amargo o fato de não ter o próximo livro em mãos e precisar interromper a leitura até que a encomenda com os outros dois chegue até aqui…

A Guerra dos Tronos é o primeiro livro das Crônicas de Fogo e Gelo, que contam as histórias das casas nobres dos sete reinos de Westeros lutando pelo Trono de Ferro, o símbolo do poder e do domínio de um único rei sobre todos os demais líderes do continente. São as maquinações destas casas que movem a história, com seus membros jogando com poder, influência e vez ou outra contando com o acaso, na minha opinião, o maior astro do texto de Martin: você começa um capítulo e não tem a menor idéia de como ele vai terminar.

Nada é garantido, nenhum personagem é intocável. E isso as vezes te irrita, noutras te deixa com aquela sensação de que é absolutamente necessário continuar o livro. Cada capítulo – narrado em terceira pessoa – conta a situação de um determinado personagem sob o ponto de vista do próprio em relação ao que está acontecendo naquele momento nos reinos. E acontece muita coisa.  Boa parte do que nos é apresentado nas primeiras páginas muda completamente em meados do tomo, e muda novamente conforme o final se aproxima. E que final foi aquele! Se a intensão do autor era deixar todo mundo maluco para comprar o segundo livro, ele conseguiu tal feito com folga. Após quase 500 páginas é que as coisas realmente explodem na sua frente!

Os tão falados problemas na tradução resumem-se a meia dúzia de palavras num contexto de milhares. A mais gritante é o uso de “campainha” para os guizos (que também não é a melhor palavra do mundo) no cabelo de Khal Drogo, o bárbaro líder de quarenta mil guerreiros nômades e que, inadvertidamente, também será uma peça importante para a Guerra que se avizinha. Uma escolha talvez baseada pela versão base para o livro ter sido escrita em português de Portugal e depois adaptado para pt.br. Ainda assim, não há nada ali que atrapalhe a leitura o suficiente para justificar o abandono da versão traduzida.

Alguns capítulos são naturalmente mais arrastados, em geral por que o próprio personagem trabalhado naquele momento é a Sansa sacal. Noutros, ao contrário, as páginas parecem terminar cedo demais. As vezes – especialmente no começo com a chuva de nomes, títulos e casas – o leitor fica um tanto quanto perdido sobre o que diabos está acontecendo ou sobre quem estamos falando. Mas, conforme afinidades vão surgindo entre nós e a trama com seus personagens muito bem trabalhados, essa dificuldade desaparece e torna-se  muito difícil largar o livro.

Outro ponto alto da história é que a magia e as criaturas fantásticas estão ali, só que são tratadas de maneira misteriosa, quase como as nossas próprias lendas antigas. Muitos já não dão os mesmos créditos as criaturas mágicas que povoaram um mundo onde verões duram décadas e o inverno se estende por uma vida inteira. O desencontro de informações, a precariedade da vida sem uma tecnologia ou medicina digna de nota e as guerras feitas por garotos, cuja expectativa de vida é tão curta quanto o alcance de suas espadas. Tudo isso faz parte do tempero da Guerra dos Tronos que – tanto a disputa na trama quanto o próprio livro – só permite dois resultados:  ou você vence, ou você morre (de curiosidade). Muito recomendado.

Lugar Nenhum

Lugar Nenhum tem dois pontos contrastantes. Por um lado, ele é extremamente cativante, especialmente sob a ótica fantástica da cidade de Londres-de-Baixo onde o que realmente importa para o enredo acontece. Em contrapartida, o que lhe sobra em ambientação falta no carisma dos personagens: especialmente em relação ao protagonista que é completamente desprovido de personalidade.

Richard Mayhew é um homem pacato com um emprego que não lhe satisfaz e uma namorada que o molda de acordo com as próprias vontades. Sua vida é guiada pelo trabalho que consome todo seu tempo e pela procrastinação constante de qualquer coisa que por ventura pudesse lhe trazer algum prazer pessoal. Em dado momento, ele escolhe ajudar uma garota ferida que encontra nas ruas e dali em diante se vê envolvido com toda a sorte de pessoas marginalizadas da cidade. Estas formam uma sociedade própria com um pé (ou os dois, melhor dizendo) enfiados em um mundo de fantasia que está além do alcance dos sentidos. E sem perceber, Mayhew também deixa pouco a pouco de existir para a Londres-de-Cima.

Talvez o fato de ter sido inicialmente concebido como uma série de TV é o que deponha contra Richard. Quem sabe na outra mídia sua atuação tenha sido menos irritante. Boa parte do conformismo e das dúvidas do escocês que se muda para Londres para trabalhar também são nossas, quanto leitores. Por ele nos representar no papel e ser dele a função de mostrar o “outro mundo” através de seus olhos, cada escolha patética e covarde dele nos atinge e nos irrita. Mesmo suas opções ao final do enredo são previsíveis. O único ponto verdadeiramente positivo em relação a ele no livro se dá no momento em que o autor coloca em cheque a possibilidade de Richard estar simplesmente maluco.

Por isso, quem realmente dá show no livro de Gaiman é a própria Londres-de-Baixo. Todo um universo oculto de nós por um véu de ignorância e descaso. Desde os ratos e pombos que vivem de nossos restos até o mais famoso dos mendigos e lunáticos que habitam os recantos escuros de nossas grandes cidades, todos eles fazem parte de um lugar parcialmente victoriano, recheado de lendas e motivos próprios que os habitantes ocupados com seus trabalhos e compromissos jamais poderiam suspeitar.

Como conto de fadas moderno, Lugar Nenhum cumpre seu papel de ser fantástico, bonito e muito bem escrito. Várias das idéias colocadas no livro são ótimas e levam nossa imaginação ao limite na busca de novas possibilidades, lugares e nuances. Um livro muito bom cujo único pecado foi embasar-se demais no estereótipo de homem comum e explicar de menos as pessoas que realmente fizeram a história. Mesmo que a intensão desde o começo não tenha sido explicar demais para permitir que a fantasia ganhasse força, ao fim fica uma sensação de que “podia ter sido melhor”.


Fundação

Apesar de não fazer qualquer menção às famosas três leis da robótica criadas pelo autor, tampouco contar com robôs na sua trama, A Fundação foi o livro que alavancou a carreira de Isaac Asimov como um dos maiores autores de ficção científica do nosso tempo. Trata-se na verdade de uma trilogia, encardenada em volume único e que narra um breve período de quatro séculos da história da humanidade doze mil anos em nosso futuro.

Após milênios de expansão, o Império Galáctico encontrava-se em declínio. A humanidade que dominou todos os planetas habitáveis da Via Láctea estava agora estagnada, sem o ímpeto criativo que já foi comum a nossa raça. Das mais de cinco quintilhões de pessoas vivas, apenas uma delas preocupou-se com este estado de inércia: Harry Seldon. O primeiro e maior psicohistoriador que já viveu. Prevendo a queda do Império, desenvolveu um plano intrincado que reduziria o período de barbárie de 30 mil anos para apenas um milênio.

Através deste pano de fundo somos apresentados há vários personagens que foram fundamentais para o plano de Seldon no transcorrer da trama. Porém, nenhum deles pode ser considerado o protagonista do livro a não ser a própria Fundação e sua contra-parte, a Segunda Fundação. Da mesma forma, dentre todos os prováveis oponentes previstos, apenas um chegou muito perto de colocar tudo a perder pois Seldon, em seus cálculos, previa a ação de milhares de milhões e não imaginou ele próprio que um único indivíduo poderia fazer a diferença perante a população de toda galáxia.

É um livro muito legal de ser lido, mas que pode ser cansativo por não permitir ao leitor afeiçoar-se, tampouco se acostumar a algum personagem específico. Quando você começa a reconhecer as ações típicas de cada um, aquela parte da narrativa chega ao fim, algumas décadas se passam e novos personagens surgem. Outro ponto que me incomodou um pouco (pelo menos na versão nacional) foram textos de um mesmo interlocutor separados por travessão. Demorava alguns segundos para compreender que era o mesmo sujeito falando e não outro.

Como ponto positivo, sempre acho muito legal ler histórias de cunho futurista escritas há algumas décadas. Ver como o autor imaginava a vida num futuro distante e comparar com a realidade atual é no mínimo engraçado. Recomendo a leitura devido a ele colocar um pano de fundo para várias outras histórias do autor. Para quem ainda não leu nada de Asimov, talvez valha a pena começar por outro livro que não este. Mas não esqueçam de reservar um tempo no futuro para A Fundação.


O Rei do Inverno

Muitos conhecem as lendas que permeiam a história de Artur, o cavaleiro bretão que; trazendo consigo Excalibur, a espada mágica provinda do Outro Mundo – expulsou os saxões da bretanha e firmou um império de paz em plena idade das trevas. Também é de conhecimento geral que toda essa história pode ter realmente ocorrido como talvez nem mesmo um guerreiro chamado Artur tenha existido algum dia.

Porém, das muitas encarnações desta história, Bernard Cornwell nos trouxe, sem dúvida de erro, a mais verídica. Em O Rei do Inverno, somos apresentados a uma Bretanha superticiosa, mergulhada em guerra civil, sofrendo com doenças e com a ignorância do povo após o declínio do Império Romano que deixou para trás apenas suas ruínas e a tecnologia bélica da parede de escudos. E por detrás destas é que Artur se ergue.

Apesar de alguns anacronismos (dos quais o autor se desculpou, caso contrário eu sequer teria notado) como a presença de Merlin e de Lancelot já nesta parte da história, ela é descrita de tal forma e com uma crueldade tão simplória que em alguns momentos você se sente em meio a turba, empurrando escudos e brandindo lanças contra o inimigo visivelmente superior em uma era de ignorância, medo e combates.

Talvez ele pareça um pouco forte para um leitor ávido por romances perfeitos e histórias bonitas, por que o que mais se encontra no transcorrer das páginas são sangue, suor e a devassidão de exércitos invadores que pilham, matam e estupram numa época em que o conceito do cristianismo ainda estava sendo difundido no coração de um povo fortemente pagão.

Um livro épico não apenas pelo seu teor mas pelo ritmo imposto pelo autor que nos leva de uma página para outra desejando conhecer um pouco mais sobre os lugares e pessoas daquela Bretanha há muito perdida. Personagens cuja força reside justamente em sua simplicidade, devoção e crença em seus deuses e na força de seus braços.

Não apenas recomendado, mas sim obrigatório.


Drácula

Apesar da história de Drácula ser uma das mais conhecidas dentre os mitos modernos, pouca gente efetivamente lê o livro, acumulando na memória apenas o parco conhecimento que surge através de obras dele derivadas, em especial, os vários filmes que chegaram ao cinema. Bram Stoker ao descrever o vampiro fez algo semelhante (para sua época): reuniu uma série de lendas romenas e as costurou para transformar o mito do vampiro para sempre.

A história trata da vontade de Vlad Tepes – ninguém menos que o Conde Drácula, um nobre que vive nas montanhas geladas da região romena conhecida como Transilvânia – de deixar o isolamento e viver no coração do mundo, na época (o romance é de 1879), a cidade de Londres. Ele não deseja apenas mudar-se dali, mas sim efetivamente tornar-se um londrino, passar despercebido às pessoas. E, para auxilia-lo nesta empreitada, contrata uma firma de advogados que enviam como representante Jonathan Harker.

Não tarda para Harker perceber em que enrascada se meteu, e dali em diante, em meio a gritos apaixonados para sua talvez para sempre perdida Mina, acompanhamos sua saga desde a fuga do castelo do Conde até seu reencontro com o próprio Dracula, em Londres, alguns meses mais tarde, quando deve enfrentar o vampiro para salvar a alma de sua amada. Vários outros personagens são apresentados, cada qual com sua importância para a história, mas sem dúvida o professor Van Helsing é o maior dentre eles. Não podemos negar que apesar de excêntricos seus métodos funcionam.

Há muitos que defendem Drácula como a obra máxima sobre o vampiro. Eu, apesar de algumas ressalvas, concordo. Escrito de maneira semelhante a um diário ou livro de recortes, ele acumula cartas e textos produzidos pelos diversos personagens em ordem cronológica (da mesma forma que Mina, a já citada protagonista, o faz no próprio livro, dando a impressão ao leitor de que ele está com o manuscrito original em mãos). Nele os não-vivos são tomados por um espírito cruel e devasso, sem limites ou receios. Em suma, a pura encarnação do mal. Nada de vampiro amargurado com dilemas éticos nestas páginas.

É bem verdade que se comparado a algumas histórias de nosso tempo, Drácula chega a ser até um tanto quanto ingênuo, ainda que para a época tenha assustado muita gente. Para aproveitar melhor o todo da trama, faz-se necessário um certo exercício para lembrar-se de que estamos vendo o mundo sob a ótica de mais de um século atrás, onde os homens eram mais altruístas e as mulheres buscavam seu espaço na sociedade (ainda que tímido).

Uma história que merece seu posto de clássico e que deve ter lugar obrigatório em qualquer estante. Aliás, como uma queixa única, o final ocorre tão bruscamente que chega a ser um anti-climax.


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