Made In…

As máquinas não paravam, trabalhando incessantemente por horas a fio, batendo, martelando, transformando matéria prima em lucro. Em toda a parte, lotando o galpão mal iluminado, cada qual em seu lugar pré-estabelecido efetuando funções delegadas por aqueles que as controlavam. Lá fora o sol ardia com toda a sua força, queimando a cobertura de zinco que lentamente cozinhava tudo lá dentro.

Nas ruas a liberdade dos pássaros os levavam para longe, se afastando do cinza barulhento. Dentro das fábricas reina apenas a cor tórrida dos dias quentes. Não há vida, apenas movimentos mecânicos. Braços bem azeitados, energia reposta pela manhã. Vez ou outra, novas ordens. Ao invés de canto, o som de um apito. O pó se acumula no chão, azeite e cavaco de metal caem pelos cantos. Engrenagens as vezes procuram, mas nunca encontram o que buscam.

Não há pausa, não há tempo.
Nem mesmo para secar o suor do rosto.

Aniversário de Namoro

de Shandi

A primeira vez que Samara viu Pedro foi em uma festa na casa de uma amiga. Apaixonara-se por ele assim que trocaram poucas palavras. A maneira como tocou-lhe o rosto afastando os cabelos e o demorado beijo à prenderam de uma forma que jamais esqueceria. Ela o amava, tinha certeza.

Se encontraram algumas outras vezes e Samara percebeu que aos poucos Pedro se afastava dela. Aflita com a possibilidade de perdê-lo, resolveu engravidar. Para ela, um filho lhes traria o tempo que precisavam para se conhecer melhor. Casaram-se um mês depois. A festa, paga pelos pais de ambos, estava perfeita. A noiva estava radiante, mas Pedro não sorria.

Com o tempo ele irá me amar” pensava ela.

E o tempo passava depressa. Estava no sétimo mês de gestação quando chegou o dia do seu primeiro aniversário de namoro. Iriam completar um ano do dia em que se conheceram. Samara combinou com Pedro que chegasse mais cedo do futebol, pois prepararia um jantar especial para ambos. Banhara-se, perfumara-se. No rádio da sala de estar, um CD com a música da festa do dia em que se conheceram tocava repetidamente.

Na mesa, o prato favorito de Pedro esfriava. O marido chegou três horas após o horário combinado, completamente bêbado e cheirando à perfume de mulher. Nem notou Samara aos prantos, a música ou às flores que decoravam o lugar. Apenas subiu para o quarto – as chuteiras enlameadas largadas pelo caminho – restringindo-se a deitar sujo na cama, virar-se para o outro lado e roncar sonoramente.

Despertou apenas no dia seguinte, o estômago roncando. Levantou-se, lavou o rosto e desceu para o café. A mesa ainda estava posta. Encontrou Samara no mesmo lugar, onde silenciosa e gelada, ainda contemplava a porta. Do seu ventre rasgado escorria o sangue que banhara o chão da sala. Mãe e filho. Mortos. A música que repetia interminavelmente tornara-se um mantra fúnebre.

Pedro; faminto, sentou e comeu.

Mergulho

Tudo passava muito rápido diante de seus olhos. Pessoas, prédios, sua própria vida. Lembrara-se da infância difícil, do sofrimento, da fome em Londres. As trevas lhe confortavam mas era a luz que lhe atraía. A idéia de se livrar daquilo tudo. Quando a oportunidade de abandonar a miséria completa lhe sorriu, não ousou disperdiçá-la.

Não tinha mais certeza de quando as coisas deixaram de caminhar nos trilhos e começaram a dar muito errado. Não se recordava mais da primeira vítima que fez para conseguir comida, ou do primeiro roubo apenas pelo divertimento de estar além dos ditames da sociedade. O verdadeiro grande jogo de ser nocivo para o sistema apenas para provar para ele que não dependia em nada de suas regras. Estava acima de suas leis.

Mas agora aquilo era passado. Pensou na família que não formou, nos amigos que nunca teve, e então resolveu não pensar em mais nada antes de se sentir verdadeiramente péssimo. Começou a contar as janelas que passavam diante de seus olhos. Apenas borrões de vidro e madeira. Contou sete delas. E então sua cabeça bateu forte contra o concreto da calçada e não viu mais nada. Para sempre.

Checklist – Setembro

Como tudo tende a ter um início e inevitavelmente um fim no limbo da memória, vou fazer uma relação de links de coisas que eventualmente escrevo e publico em algum site da vida, torcendo para que daqui a um ano ou dois os textos continuem com os mesmos endereços de hoje.

Como estou basicamente apenas jogando Warcraft, setembro foi um mês bem fraco. Basicamente tivemos:

Fiquei devendo o artigo para o dot20 este mês. Em Outubro sai.

A Lenda da Lebre

Certo dia, uma lebre alva como o mais claro dos dias nevados deparou-se com um lugar diferente, ao qual ela jamais havia imaginado existir. Tratava-se aos seus olhos de uma pedra lisa e plana que se estendia de ponta à ponta do horizonte, rasgando o mundo e dividindo-o em duas metades iguais.

Haviam ainda, nesta pedra, pequenos sinais amarelos intermitentes, e uma linha branca (não tão branca quanto ela própria, mas ainda assim suficientemente desprovida de cor ao ponto que poderia ser considerada branca pela lebre) e em seu centro aqui e acolá pequeninas peças de função ainda mais misteriosa. Colocadas ali juntamente com o bizarro conjunto pareciam tão deslocadas do que lhe era natural quanto todo o resto.

Olhou atentamente por algum tempo para a imensidão escura daquela rocha aparentemente sem fim e questionou-se de sua real utilidade. Não era compreensível, pelo menos para ela, que alguém em algum lugar tivesse apenas construído aquilo daquela maneira sem um propósito maior. Questionou-se por um longo tempo sobre tal assunto e resolveu-se que do ponto em que estava não possuia uma perspectiva completa os suficiente para julgar a função daquilo. Deveria avançar.

“Aquilo” ainda não tinha um nome também, o que começava a se tornar complicado para ela quanto mais pensava na tal coisa e era obrigada a referir-se a tal como sendo algo que estava ali presente e era real. Precisaria chamá-la de alguma coisa para referir-se a ela no futuro, e o problema era cíclico pois dar nomes ao que não se conhece parecia igualmente tolo. Por isso resolveu explorar melhor antes de mais nada. Tinha que ser assim, em sua opinião.

Avançou aos pulos (e todos sabem como lebres são boas nisso) e logo estava no meio daquela linha sem fim. Era um novo ponto de vista! Enfim sentia-se realmente no centro das coisas. Às vezes,  desejava temerosa regressar um pouco pelo caminho já feito, voltar para a segurança do mato ralo de onde veio, mas não era capaz disto. Precisava seguir em frente. Precisava saber onde aquilo tudo lhe levaria.

Sentiu então que o mundo vibrava em sua volta, e um ronco distante aproximava-se dela, provindo de qualquer lugar. Rápido, irrefreável. Entendeu então qual era o sentido daquela via, percebeu-se do preço de suas escolhas e lamentou-se não ter aproveitado ainda mais do tempo que dispunha para ficar ali, apenas observando-a infinita em sua volta.

Quando enfim desistiu de entender, resignou-se e inspirou o ar pela última vez, instantes antes de  uma moto (daquelas que só se vêem vez ou outra nestas rodovias) atingila em cheio. E então seu corpo flutuou sem peso pelo ar, indo parar muito, muito longe, além do lugar onde as outras lebres podiam vê-la. Restavam-lhes apenas imaginar para onde a lebre havia ido e como seria estar lá um dia.

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Blog do H

Esta é a minha mais nova tentativa fracassada de manter um site com algumas das coisas que escrevo e desenho, em geral ambos. Como era de se esperar, não haverá nada de muito útil aqui, a não ser que você veja utilidade em coisas banais, amadoras e de qualidade questionável.

A idéia é de um trabalho sem pretenções com contos e textos de fantasia (ou não), além de pequenos comentários relacionados a textos de minha autoria publicados em outros sites com os quais colaboro.

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