Certo dia, uma lebre alva como o mais claro dos dias nevados deparou-se com um lugar diferente, ao qual ela jamais havia imaginado existir. Tratava-se aos seus olhos de uma pedra lisa e plana que se estendia de ponta à ponta do horizonte, rasgando o mundo e dividindo-o em duas metades iguais.
Haviam ainda, nesta pedra, pequenos sinais amarelos intermitentes, e uma linha branca (não tão branca quanto ela própria, mas ainda assim suficientemente desprovida de cor ao ponto que poderia ser considerada branca pela lebre) e em seu centro aqui e acolá pequeninas peças de função ainda mais misteriosa. Colocadas ali juntamente com o bizarro conjunto pareciam tão deslocadas do que lhe era natural quanto todo o resto.
Olhou atentamente por algum tempo para a imensidão escura daquela rocha aparentemente sem fim e questionou-se de sua real utilidade. Não era compreensível, pelo menos para ela, que alguém em algum lugar tivesse apenas construído aquilo daquela maneira sem um propósito maior. Questionou-se por um longo tempo sobre tal assunto e resolveu-se que do ponto em que estava não possuia uma perspectiva completa os suficiente para julgar a função daquilo. Deveria avançar.
“Aquilo” ainda não tinha um nome também, o que começava a se tornar complicado para ela quanto mais pensava na tal coisa e era obrigada a referir-se a tal como sendo algo que estava ali presente e era real. Precisaria chamá-la de alguma coisa para referir-se a ela no futuro, e o problema era cíclico pois dar nomes ao que não se conhece parecia igualmente tolo. Por isso resolveu explorar melhor antes de mais nada. Tinha que ser assim, em sua opinião.
Avançou aos pulos (e todos sabem como lebres são boas nisso) e logo estava no meio daquela linha sem fim. Era um novo ponto de vista! Enfim sentia-se realmente no centro das coisas. Às vezes, desejava temerosa regressar um pouco pelo caminho já feito, voltar para a segurança do mato ralo de onde veio, mas não era capaz disto. Precisava seguir em frente. Precisava saber onde aquilo tudo lhe levaria.
Sentiu então que o mundo vibrava em sua volta, e um ronco distante aproximava-se dela, provindo de qualquer lugar. Rápido, irrefreável. Entendeu então qual era o sentido daquela via, percebeu-se do preço de suas escolhas e lamentou-se não ter aproveitado ainda mais do tempo que dispunha para ficar ali, apenas observando-a infinita em sua volta.
Quando enfim desistiu de entender, resignou-se e inspirou o ar pela última vez, instantes antes de uma moto (daquelas que só se vêem vez ou outra nestas rodovias) atingila em cheio. E então seu corpo flutuou sem peso pelo ar, indo parar muito, muito longe, além do lugar onde as outras lebres podiam vê-la. Restavam-lhes apenas imaginar para onde a lebre havia ido e como seria estar lá um dia.
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